Ar tóxico, por Carvalho Filho.

      Guimarães Rosa, em um dos contos de Sagarana, retira de um reino encantado e assombrado um termo curioso para empregar em sua narrativa: “melancolizante”. Provavelmente o utiliza para dar nome a algo capaz de tornar as coisas melancólicas. Há tantas razões melancolizantes para nos sugar o ânimo. É melancolizante ter que se manter de pé às custas da queda alheia ou torcer para o outro fracassar para você se sobressair, mais melancolizante ainda é observar o mérito ser abafado pela colegagem e similares. As engrenagens foram feitas com o intuito de moer quem não se curva às regras do jogo.

      Por vezes me sinto melancolizado. Espécie de banho em águas envenenadas ou contato com ar tóxico. A hipocrisia e corrupção proliferam, armam uma tenda que cobre o mundo inteiro. E para completar minha desilusão tenho em mãos O código dos homens honestos, de Balzac. Aconselha o francês: “Devemos temer os amigos, os parentes? Sim! desconfiem de todos, mas nunca deixem transparecer sua desconfiança.” E não é assim que procedemos após levarmos porrada na vida? Quem bem souber atentará para o alerta de Balzac.

    Como seguir adiante? “Julga-me a gente toda por perdido”, lastimou-se Camões. Séculos mais tarde posso fazer minhas suas palavras. Diante do semelhante, muitas vezes, somos inimigos. Ameaças bípedes e pensantes. Em meio a esse cenário de todos contra todos, compete a nós não olharmos somente para o arame farpado, mas para a bela paisagem que se oculta por trás do medo, ódio e insegurança.

Carvalho Filho

 

  • A imagem que ilustra o texto é intitulada Melancolia, é um quadro de Munch.
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