EPIFANIA MODERNA OU DESVIO DE DOUTRINA: A saída dos católicos para o protestantismo neopentecostal devido às aplicações do Concilío Vaticano II em Parnaíba(1960-1980) por Leonardo Silva

INTRODUÇÃO

 

 

Após noites sem dormir, buscando uma temática adequada para o meu trabalho de conclusão de curso, descobri no meu meio religioso-social a problemática que tanto buscava; debrucei–me diante de um assunto recoberto de ineditalidade: A quebra de paradigmas ocorrida em Parnaíba na década de 1970-1980 com a aplicação das mudanças do Concílio Vaticano II,concílio este que trouxe mudanças cruciais na forma de viver e celebrar o catolicismo e as conseqüências decorridas destas mudanças. A pesquisa decorreu de forma fácil, mas a seleção de material foi de grande dificuldade, ocorrido por causa do excesso de fontes catalogadas. Católico praticante que sou, desde a adolescência, vivenciou a dinâmica do catolicismo e com o tempo, apaixonei-me pelos seus dogmas, sua Tradição, seus ensinamentos e verdades teológicas, que são uma pérola neste mundo onde o relativismo e o regime de inúmeras verdades imperam. Em meados de 1970 a cidade de Parnaíba iniciou um movimento de transformações na forma de celebrar; Estas transformações serão o conteúdo dos debates desta monografia. A capital do Delta tornou-se palco de algo que aconteceu em inúmeros outros locais mais aqui adquiriu um gosto todo especial, pelo regionalismo e pelas peculiaridades típicas desta cidade. A forma de celebrar, não mais em latim, língua tradicional desde o século IV, foi substituída pelo vernáculo, ou seja, cada católico ouviria a missa na língua de seu país.

Durante o andamento deste trabalho de conclusão de curso, foram realizadas pesquisas bibliográficas nos livros apresentados no anexo, e em arquivos digitais e públicos. Nestes últimos, o procedimento padrão foi levar uma câmara digital com a finalidade de fotografar documentos, livros e jornais, que pelo tempo e falta de conservação, não podem ser mais xerocopiados, o que causaria danos irreparáveis as obras selecionadas para esta pesquisa. A máquina fotográfica também foi bastante utilizada em prédios, igrejas e logradouros de Parnaíba, material que fará parte do conjunto de imagens, a ser usado no trabalho de monografia.

E foi mais além, gerou transformações significativas da própria estrutura da Igreja, dos seus altares-mores em barroco, para os estilos atuais, excluindo nichos desnecessários, grandes monumentos religiosos, para dar lugar ao sacrário e dar um ar de humildade no templo religioso. A presença do sacerdote por trás do altar e rezando a missa de forma popular gerou em alguns um descontentamento que os fez sair de sua religião, por considerá-la não mais pura, mas misturada as idéias nacionalistas, modernistas e comunistas; as camadas conservadoras da cidade ausentaram-se primeiramente desta igreja que tinha deixado de ser “a verdadeira Igreja de Cristo para se tornar outra coisa” e com o crescimento do protestantismo pentecostal, essas camadas seguiram rumo a estes grupos. A política social da Igreja afastou os ricos e aproximou os pobres. Criaram novos meios e métodos de transmitir os seus ensinamentos. A partir desta problemática irei usar de uma gama de autores e teóricos do ramo da filosofia, historiografia, teologia. sociologia além de fazer uso de fontes próprias como livros de tombo, cartas papais, encíclicas, livros e entrevistas com membros que vivenciaram os fatos decorridos na minha problemática.

No primeiro capítulo Passos para a mudança irei contextualizar a sociedade e a Igreja Católica antes durante e depois do Concilio Vaticano II. Percebe-se nesta época onde imperou os regimes totalitários que impunham severas pressões sobre a religiosidade,suprimindo-a ou tornando-a particular,criada a seu modo.O Concilio nascerá de um intrínseco desejo de abraçar a modernidade que já despontava  e gerava nos homens e mulheres um desconforto,diante de uma Igreja ultrapassada e tradicional.é verdade que as mudanças não forma bem aceitas no seio do meio pobre,pois eles já tinha sido cobaias de outras tentativas de organizar e retirar do meio social,as praticas populares de manifestação.

No segundo capítulo, O burburinho nos altares parnaibanos. Discutiremos a função da história oral nas praticas religiosas e sua principal contribuição para a História, como método de pesquisa e resgate da memória. O conceito de religião e suas diferentes faces diante da historiografia. Irei demonstrar de forma filosófica, como o paradigma da fé tradicional ruiu diante da modernidade religiosa, onde a fé deixou de ser algo alheio ao homem e conquistou espaço para cuidar do individuo pobre e excluído. Abusarei de fontes teóricas sobre o contexto da religiosidade católica cristã e o impacto entre a teologia e a sociologia, a história e a tradição, A verdade de fé e o Relativismo religioso e discursivo. Neste contexto também tratarei de relatar sobre a luz da historiografia, o fenômeno da quebra de paradigmas que por coincidência, iniciam juntos na década de 1960.

No terceiro capitulo o Concílio Vaticano II em Parnaíba, A cidade de Parnaíba era um local onde a religiosidade era exercida de forma simples, e até 1903 o Piauí era anexo do episcopado do São Luís. Padres pouco viam a cidade de Parnaíba e as ordens religiosas (Ordem do Rosário dos Pretos e outras irmandades leigas) e algumas fraternidades é que serviam a população na maior parte dos deveres religiosos. Porém para abordar essa temática terei que ir até Roma e analisar os fatos que impulsionaram o florar de um Concílio que iria transformar a História do catolicismo e do mundo para sempre. Logo após revisar as principais transformações ocorridas em Parnaíba e nas igrejas irei com a ajuda de Chartier, Foulcalt, ver e analisar o comportamento dos moradores, os discursos prós e contras das mudanças, a perplexidade dos mesmos diante dos fatos e das transformações ocorridas, o retorno do misticismo e o temor do fim dos tempos (surgido após as duas grandes guerras). Logo após por meio de entrevistas irei destacar e abordar com fervor como se deu essa saída do mesmo ou o seu afastamento, quais as causas reais, quais os discursos e os fatores primordiais para o seu afastamento, como reagiu à imprensa e como as camadas pobres reagiram diante desta mudança no viver o cristianismo, não esquecendo com a pós-modernidade vê a religiosidade, a pratica humana e as crença do ser humano.

Por fim, o tópico Considerações Finais, que fará uma análise do trabalho construído durante toda pesquisa, sempre apontando para um maior aprofundamento, principalmente, das obras utilizadas no Trabalho de Conclusão de Curso, com intuito de esclarecer, valorizar e promover a história do nosso estado, o Piauí, levando em conta as teorias e métodos científicos da disciplina História. Vale lembrar, que sempre observando a importância dos trabalhos já realizados nesta área, visto que as revisões, considerações, interpelações e interpretações múltiplas são comuns em toda pesquisa, num eterno processo de construção e desconstrução, num eterno devir.               

 

CAPÍTULO I

PASSOS PARA A MUDANÇA

 

1.1 Uma Igreja perseguida

A sociedade humana, em meados de 1960, vivia um clima de espera. Duas grandes guerras destruíram vidas para sempre, criaram temores nas pessoas, que buscaram apoios na religião. Porém o catolicismo, não era bem visto, pois era considerada uma instituição retrógada e com uma confiança duvidosa; O número de clérigos diminuiu bastante, as igrejas estavam abandonadas e segundo alguns autores chegou o cúmulo de se fechar templos religiosos por ausência de fiéis. As missas celebradas em latim, não atraiam a juventude, apaixonada com o moderno, o novo que a ciência e a cultura tinham a oferecer. Em outras palavras:

 

(…) os horrores do fascismo e principalmente do nazismo e dos campos de concentração, os mortos e as destruições da Segunda Guerra Mundial, a bomba atômica – primeira encarnação histórica “objetiva” de um possível apocalipse –, a descoberta de culturas diversas do ocidente conduziram a uma crítica da idéia de progresso (recorde-se La crise Du progrès, de Friedmann, de 1936). A crença num progresso linear, contínuo, irreversível, que se desenvolve segundo um modelo em todas as sociedades, já quase não existe. A história que não domina o futuro passa a defrontar-se com crenças que conhecem hoje um grande revival: profecias, visões em geral catastróficas do fim do mundo ou, pelo contrário, revoluções iluminadas, como as invocadas pelos milenarismos tanto nas seitas das sociedades ocidentais quanto em certas sociedades do Terceiro Mundo. É o retomo da escatologia. (LE GOFF, 1994, p104)

 

Depois da guerra, começou a perseguição à Igreja nos países comunistas. A Intervenção da Rússia nestes países foi fatal para o Catolicismo. Na Romênia, Albânia Bulgária, Iugoslávia (atual Sérvia e Montenegro), Tchecoslováquia, Hungria, Polônia e outros a Igreja Católica se viu continuamente perseguida, tendo de desenvolver o seu apostolado clandestinamente. Antes disso no pontificado do Papa Pio XI(1922-1939) o governo do México impôs forte repressão contra o cristianismo num levante conhecido como “Cristiada” sobre este acontecimento Jean Meyer López escreveu em 1932:

 

“A Cristiada foi um acontecimento” onde os laicistas havia impostos a liberdade de todos os cultos, exceto ao culto católico, submetido ao controle do Estado, à venda dos bens da Igreja, à proibição dos votos religiosos, à supressão da Companhia de Jesus e, portanto, de seus clérigos, ao juramento de todos os funcionários do Estado em favor destas medidas, à deportação e ao encarceramento dos bispos ou sacerdotes que protestassem. (CAIRNS. 1995, p246,)

 

A orientação Contra o cristianismo gerada pelo Estado cristalizou-se na Constituição de 1917, onde o Estado Liberal moderno aumentava as perseguições. Estabeleceu a laicização obrigatória (art. 3), proibia os votos e o estabelecimento de ordens religiosas, assim como todo o ato de culto fora dos tempos ou das casas particulares. Além do mais proibia a existência de colégios de inspiração religiosa, conventos, seminários, bispados e casas curiais. López Beltrán, considerando os anos de 1926-1929 dá o espantoso número 39 sacerdotes assassinados, um diácono seis religiosos, e 46 sacerdotes diocesanos fuzilados.

Em 1936 a 1939 foi a vez de a guerra civil espanhola1 gerar vitimas no meio do catolicismo. Era considerado crime ser católico; o ódio à Igreja e aos fieis cresceu tanto que os assassinatos foram monstruosos por parte das autoridades do Estado, agentes comunistas e sindicalistas anarquistas. “Foram brutalmente assassinados 4.000 sacerdotes e 2.300 religiosos e além de milhares de fiéis leigos. Só em Madrid, foram mortos 334 padres diocesanos; muitos foram queimados vivos e outros foram enterrados ainda com vida.” (FAUS, 2008, p.58).

 

 

1.2 Surge o Concílio Vaticano II, esperança da cristandade para o mundo moderno 

Diante destas transformações e incidentes a Igreja Católica viu a decadência de sua fé, viu-se forçada a aderir ao novo que despontava.

O passo dado de forma crucial ocorreu na manhã de inverno do dia 23 de janeiro de 1959 as 09h30min da manhã, dia da festa da conversão de São Paulo, na patriarcal

 

 

 


1 Hugh Thomas, em “A Guerra Civil Espanhola” (1964), disse que “nunca se viu na Europa e no mundo um ódio tão apaixonado contra a religião, mais de cem sacerdotes da diocese de Bastrato foram fuzilados.” Os mártires eram torturados terrivelmente antes de serem mortos. Uns eram espancados ,outros tinham os olhos vazados,sofriam queimaduras,choques elétricos,as monjas sofriam abusos sexuais.Fruto do ódio marxista e laicista contra a religião.Tornou-se muito conhecido o caso do irmão Fernando Saperas,eu depois de muita tortura,foi fuzilado,morrendo com essas palavras nos lábios:”Viva Cristo Rei”(THOMAS,1964.p,77)

 

 

Basílica de São Paulo Fora dos Muros, quando Ângelo Giuseppe Roncalli, o Papa João XXIII, disse diante de seus cardeais e convidados:

 

 

“Pronuncio perante vós, por certo tremendo um pouco de emoção, mas ao mesmo tempo com humilde resolução de propósito, o nome e a proposta de duas celebrações: um Sínodo diocesano para a Urbe (a cidade de Roma) e um Concílio geral para a Igreja universal” (KLOPPENBURG, 1972, p38).

 

 

 

 

Como mais importante contribuição para a unidade, da parte da Igreja e, portanto como tarefa primordial do Concílio, João XXIII mencionou o programa de atualização da Igreja e de sua adaptação ao mundo moderno, A novidade estava na maneira direta como apontava as falhas da Igreja e insistia na necessidade de profundas mudanças. Nesse reconhecimento das limitações da Igreja não se via sinal de fraqueza, mas sim de força. O Papa antecipou por um ano a data de abertura do concílio: 11 de outubro de 1962. As igrejas que não eram unidas a Roma foram convidadas como Igrejas-Irmãs.

 

 

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2 Ser moderno é encontrar-se em um ambiente que promete aventura, poder, alegria, crescimento, autotransformação e transformação das coisas em redor — mas ao mesmo tempo ameaça destruir tudo o que temos tudo o que sabemos tudo o que somos. A experiência ambiental da modernidade anula todas as fronteiras geográficas e raciais, de classe e nacionalidade, de religião e ideologia: nesse sentido, pode-se dizer que a modernidade une a espécie humana. Porém, é uma unidade paradoxal, uma unidade de desunidade: ela nos despeja a todos num turbilhão de permanente desintegração e mudança, de luta e contradição, de ambigüidade e angústia. Ser moderno é fazer parte de um universo no qual, como disse Marx, “tudo o que é sólido desmancha no ar”. (BERMAN. 1989.p.4)

As Igrejas cristãs foram formalmente convidadas a enviarem observadores que assistiram a todas as sessões do concílio, embora sem direito a voto. Na abertura do concilio ele demonstrou a opinião da Igreja sobre este momento de “retirar a poeira do Trono de São Pedro” sobre isto ele ressaltou:

 

Mas, para que esta doutrina atinja os múltiplos níveis da atividade humana, que se referem aos indivíduos, às famílias e à vida social, é necessário primeiramente que a Igreja não se aparte do patrimônio sagrado da verdade, recebido dos seus maiores; e, ao mesmo tempo, deve também olhar para o presente, para as novas condições e formas de vida introduzidas no mundo hodierno, que abriram novos caminhos ao apostolado católico.  Por esta razão, a Igreja não assistiu indiferente ao admirável progresso das descobertas do gênero humano, e não lhes negou o justo apreço, mas, seguindo estes progressos, não deixa de avisar os homens para que, bem acima das coisas sensíveis, eleve os olhares para Deus, fonte de toda a sabedoria e beleza; e eles, aos quais foi dito: « Submetei a terra e dominai-a » (Gen 1, 28), não esqueçam o mandamento gravíssimo: « Adorarás o Senhor teu Deus, e só a ele servirás » (Mt 4, 10; Lc 4, 8), para que não suceda que a fascinação efêmera das coisas visíveis impeça o verdadeiro progresso. (JOÃO XXIII, 1963p. 4)

 

A parte principal na preparação do concílio consistia numa sondagem de opinião entre os bispos do mundo inteiro. Pediu-se que elaborassem uma lista de assuntos que, em sua opinião, deveria ser tratados. A maior parte dos pontos ressaltados baseava-se em sociedade e direitos dos oprimidos, doutrina social da Igreja, estrutura do rito eucarístico, que língua usar na missa, atuação dos clérigos, regionalismo entre outros. Logo após foi-se criada comissões na elaboração de esquemas, baseadas nas sugestões recebidas da Cúria e dos Institutos Eclesiásticos de Roma, de bispos e teólogos o mundo inteiro.

Em 3 de junho de 1963 as 19horas e 45 minutos, no intervalo entre a 1° e a 2° sessão do Concilio morre o papa João XXIII, de câncer no estômago. Em seguida, o conclave elegeu Paulo VI como sucessor de João XXII|

Figura 2. Papa Paulo VI

 

 

Este papa se destacou pela sua coragem de continuar o Concílio Vaticano II, foi ele que deu continuação a aquilo que outros chamariam de Aggiornamento, essa palavra italiana significa “colocar em dia”, “atualizar” e era que a Igreja Católica estava fazendo naquele momento. A Igreja deixava de ser algo distante, um mundo estranho, para ser popular e presente, principalmente nos povos da América Latina, Ásia, África e Oceania, onde a partir de 1965 seria uma Igreja dos pobres e para os pobres. Com este novo aspecto e nova mudança do ser católico a Igreja desejava abrir-se a escuta, ir ao encontro, abrir-se, às legítimas exigências do mundo de hoje, em suas profundas mudanças de estruturas, de modos de ser em diversas culturas, se inserindo nele para ajudá-lo, sempre com respeito à sua autonomia relativa (secularização), num espírito de doação, de zelo, para cuidar dos oprimidos. Sobre estes acontecimentos Rogério Valle ressalta:

 

O fundamental é perceber que, nos tempos em que vivemos, nem as personalidades conseguem mais se almodar à busca desenfreada de eficiência a todo custo (custo ético, em entendido), nem as instituições e organizações (empresas, partidos, órgãos públicos, etc…) conseguem mais centralizar e conseguem mais centralizar e formalizar tudo o que encontram pela frente (…) existem visíveis e generalizados sinais de cansaço em relação ao padrão (e modelo) de civilização vivida mais ou menos até os anos 70, Maio de 1968 foi à grande explosão de insatisfação com esta modernidade triunfante, num grito ouvido da Califórnia à Tchecoslováquia, inclusive no Brasil. E bom ressaltar isto para os que acentuam demais nossa marginalidade de “Capitalismo Periférico “e se esquecem do grau em que já estamos envolvidos com as experiências e estruturas centrais da Modernidade (VALLE, 997, p 15)

 

 

 

E o para Paulo VI confirma-o dizendo:

Pelo mesmo facto, verificam-se cada dia maiores transformações nas comunidades locais tradicionais, como são famílias patriarcais, os clãs, as tribos, aldeias e outros diferentes grupos, e nas relações da convivência social. Difunde-se progressivamente a sociedade de tipo industrial, levando algumas nações à opulência económica e transformando radicalmente as concepções e as condições de vida social vigentes desde há séculos. Aumentam também a preferência e a busca da vida urbana, quer pelo aumento das cidades e do número de seus habitantes, quer pela difusão do género de vida urbana entre os camponeses. Novos e mais perfeitos meios de comunicação social permitem o conhecimento dos acontecimentos e a rápida e vasta difusão dos modos de pensar e de sentir; o que, por sua vez, dá origem a. numerosas repercussões. Nem se deve minimizar o facto de muitos homens, levados por diversos motivos a emigrar, mudarem com isso o próprio modo de viver.

Multiplicam-se assim sem cessar as relações do homem com os seus semelhantes, ao mesmo tempo em que a própria socialização introduz novas ligações, sem, no entanto favorecer em todos os casos uma conveniente maturação das pessoas e relações verdadeiramente pessoais («personalização»).

É verdade que tal evolução aparece mais claramente nas nações que beneficiam já das vantagens do progresso económico e técnico, mas nota-se também entre os povos ainda em vias de desenvolvimento, que desejam alcançar para os seus países os benefícios da industrialização e da urbanização. Esses povos, sobretudo os que estão ligados a tradições mais antigas, sentem ao mesmo tempo a exigência dum exercício cada vez mais pessoal da liberdade. (PAULO VI, 1965, p3)

 

Essa sociedade destruída pelas elites locais, pela pobreza e pelo descaso das autoridades, foi o foco de atuação dos bispos na II Conferencia Geral do Episcopado Latino-Americano em Medellín (Colômbia) em 1968 e em Puebla de Los Angeles (México) em 1979. Nestas conferências foram tratadas as formas de unificar a religiosidade aos âmbitos da sociedade, principalmente daqueles da classe menos favorecidas. Criou-se então o que passou a se chamar Doutrina da Libertação ou Teologia da Libertação, segundo o teólogo João Batista Líbano:

 

Em nosso continente, imperava um capitalismo selvagem, redigido por regimes militares autoritários, uma cultura burguesa dita católica, sem a verdadeira seiva profético-cristã. Portanto o diálogo não podia vestir-se da inocência nem da suavidade do diálogo europeu. Teve de tomar um caráter virulento de embate com forças de opressão. (…) com a originalidade de inserir mais fortemente os pobres na compreensão do ser humano (LIBANIO, 1996.p.83-84)

 

 

Então a partir deste momento a Igreja iniciou a sua caminhada rumo àqueles que eram considerados os mais pobres.

 

Para isso colocou a sua doutrina social, que estava engavetada desde o início do século XX. Sobre isto o Papa Paulo VI diz:

E, ultimamente, no desejo de responder ao voto do Concílio e de concretizar a contribuição da Santa Sé para esta grande causa dos povos em via de desenvolvimento, julgamos ser nosso dever criar entre os organismos centrais da Igreja, uma Comissão pontifícia encarregada de “suscitar em todo o povo de Deus o pleno conhecimento da missão que os tempos atuais reclamam dele, de maneira a promover o progresso dos povos mais pobres, a favorecer a justiça social entre as nações, a oferecer às que estão menos desenvolvidas um auxílio, de maneira que possam prover por si próprias e para si próprias, ao seu progresso”; (8) Justiça e paz são o seu nome e o seu programa. Pensamos que este mesmo programa pode e deve unir, com os nossos filhos católicos e irmãos cristãos, os homens de boa vontade. Por isso é a todos que hoje dirigimos este apelo solene a uma ação organizada para o desenvolvimento integral do homem e para o desenvolvimento solidário da humanidade (. PAULO VI 1967, p13)

 

 

1.3. Epifania moderna ou Desvio de doutrina: As aplicações do Vaticano II enfrentam dificuldades e barreiras

 

Ao chegar à América latina as iniciativas do concílio tiveram inúmeras dificuldades de assumir-se entre os clérigos que aqui estava há bastante tempo desconfiava-se dos sacerdotes mais preocupados em organizar sindicatos, associações, agrupamentos comunitários do que rezar a missa, confessar, ou rezar pessoalmente. A recepção latino-americana do Vaticano II conflitou com a recepção dita católica, mas que excluía a dimensão de Libertação. Punha reparos numa consideração otimista e tolerante diante da modernidade que escondia sua face econômica de dominação e só ostentava o lado sorridente da democracia e da cultura pluralista. Muitos governos ditatoriais perseguiram o fenômeno da teologia da libertação e apoiavam e até incentivavam, a saída dos fieis do catolicismo, para impedir movimentos de contestação e criticas ao governo, onde a elite local se apoiava. Neste período, houve uma grande leva de sacerdotes que morreram em regiões onde sistemas de opressão eram vigente até mesmo aquele que tinham por bandeira a liberdade e a igualdade, mataram clérigos que negavam este regime que por fim se tornara um regime ditatorial é o caso de Cuba, onde Fidel Castro, entre os anos de1959-1980 “fuzilou 56.212 pessoas no “paredón”, sendo que 30% deste eram religiosos ou leigos engajados, 70.824 mortos ou desaparecidos tentando uma fuga pelo mar” (Studart, 2004, p273). Porém foram logo aceitos pela massa pobre e oprimidos que desejava uma transformação de vida. Mas nas regiões onde imperavam as elites latifundiárias nas quais governavam solenes principalmente (no caso do Brasil) este padres, bispos, religiosos e leigos engajados sentiram dificuldade de assumir atuações aos pobres.

 

Destaco aqui um texto de Erico Veríssimo, retirado do livro Incidente em Antares:

 

 

(…) Meu caro professor – diz o pároco com a sua voz débil-Igreja sem latim, sem o velho ritual e com todas essas novidades… Padre sem batina, música profana… Não, não é mais a Igreja de Cristo. Vamos acabar na nudez seca do protestantismo. E é uma tristeza! O PE Pedro-Paulo (o senhor o conhece por que já os vi juntos) é desses sacerdotes jovens “para frente”, como diz o vulgo. Imagine permitir que uns meninos boêmios e esquisitos toquem música de Jazz nas suas missas. Pois é. (…) Ele já até leu Marx e Lenine. Isso para não falar em outros comunistas ateus. (VERISSÍMO, 1978, p.171)

 

 

 

Ao chegar aqui especialmente no Piauí, a teologia da libertação adquiriu forma nos interiores e localidades pobres, protegendo os camponeses e pequenos proprietários de Terra. Os novos hábitos e a nova forma de celebrar atraíram e afastaram muitos membros, alguns por ignorância ou por dificuldade de aceitar o fim,daquilo que era comum ao seu dia-a-dia.

Aplicasse aqui as palavras de Paulo VI:

 

Para levar a cabo esta missão, é dever da Igreja investigar a todo o momento os sinais dos tempos, e interpretá-los à luz do Evangelho; para que assim possa responder, de modo adaptado em cada ,geração, às eternas perguntas dos homens acerca do sentido da vida presente e da futura, e da relação entre ambas. É, por isso, necessário conhecer e compreender o mundo em que vivemos, as suas esperanças e aspirações, e o seu carácter tantas vezes dramático. Algumas das principais características do mundo actual podem delinear-se do seguinte modo.

A humanidade vive hoje uma fase nova da sua história, na qual profundas e rápidas transformações se estendem progressivamente a toda a terra. Provocadas pela inteligência e actividade criadora do homem, elas reincidem sobre o mesmo homem, sobre os seus juízos e desejos individuais e colectivos, sobre os seus modos de pensar e agir, tanto em relação às coisas como às pessoas. De tal modo que podemos já falar duma verdadeira transformação social e cultural, que se reflecte também na vida religiosa.

Como acontece em qualquer crise de crescimento, esta transformação traz consigo não pequenas dificuldades. Assim, o homem, que tão imensamente alarga o próprio poder, nem sempre é capaz de o pôr ao seu serviço. Ao procurar penetrar mais fundo no interior de si mesmo, aparece frequentemente mais incerto a seu próprio respeito. E, descobrindo gradualmente com maior clareza as leis da vida social, hesita quanto à direcção que a esta deve imprimir.

Nunca o género humano teve ao seu dispor tão grande abundância de riquezas, possibilidades e poderio económico; e, no entanto, uma imensa parte dos habitantes da terra é atormentada pela fome e pela miséria, e inúmeros são ainda os analfabetos. Nunca os homens tiveram um tão vivo sentido da liberdade como hoje, em que surgem novas formas de servidão social e psicológica. Ao mesmo tempo que o mundo experimenta intensamente a própria unidade e a interdependência mútua dos seus membros na solidariedade necessária, ei-lo gravemente dilacerado por forças antagónicas; persistem ainda, com efeito, agudos conflitos políticos, sociais, económicos, «raciais» e ideológicos, nem está eliminado o perigo duma guerra que tudo subverta. Aumenta o intercâmbio das ideias; mas as próprias palavras com que se exprimem conceitos da maior importância assumem sentidos muito diferentes segundo as diversas ideologias. Finalmente, procura-se com todo o empenho uma ordem temporal mais perfeita, mas sem que a acompanhe um progresso espiritual proporcionado.

Marcados por circunstâncias tão complexas, muitos dos nossos contemporâneos são incapazes de discernir os valores verdadeiramente permanentes e de os harmonizar com os novamente descobertos. Daí que, agitados entre a esperança e a angústia, sentem-se oprimidos pela inquietação, quando se interrogam acerca da evolução actual dos acontecimentos. Mas esta desafia o homem, força-o até a uma resposta. ((. PAULO VI 1967, p21)

 

O Papa esperava que suas decisões atingissem as nações com grande ímpeto, mas a dificuldade de aceitar as mudanças colocou em xeque o fim da cristandade ou o início de uma Igreja moderna e midiatizada para alcançar o homem contemporâneo. Mas o que dizer daqueles que abandonaram a Igreja, para aderir o recém-chegado.

Destaco aqui o incrível crescimento dos movimentos neopentecostais que surgiam no meio protestante.Estes movimentos tiveram origem nos EUA, e caracterizam-se pelas emoções exaltadas,curas extraordinárias,regadas a música religiosa,contendo letras fortes e de caráter salvifico.Sua rápida divulgação é devido ao fato de que a doutrina pentecostal é de fácil compreensão, não é fixa a templos, mas necessitava apenas de pequenos espaços (casas, calçadas, praças e qualquer lugar, onde pudesse ser ouvido e visto)além de possuir um caráter extremamente popular e onde os seus membros sentem-se compreendidos e aceitos pela nova forma de viver a fé. Destaco aqui o fator primordial que é a supervalorização dos milagres, das benzenções e de todo e qualquer ato de cura e milagre, típico do imaginário popular e do cotidiano, principalmente do homem do campo, que nas quatro primeiras décadas do século XX. Assim afirma a historiadora Maria Lucia Montes,quando relata o quanto o protestantismo atraiu o homem do campo:

 

Por mais humilde, mais incapaz, mais ignorante que seja o convertido sente imediatamente que é útil e que nele depositam confiança: chamam-no respeitosamente de irmão, seus serviços são solicitados por pessoas que falam como ele e que têm a certeza de pertencer ao povo de Deus. Por fim, para esses novos fiéis, a adesão às igrejas pentecostais emergentes seguramente representaria uma subversão simbólica da estrutura tradicional do poder (…) essas igrejas que nascem sem os vínculos tradicionais que sempre uniram o catolicismo ás classes superiores, rejeitando, por desnecessária, sua tutela paternalista. (MONTES, 1998, P.84)

 

Vale lembrar que esse catolicismo dito popular mantinha uma relativa autonomia com respeito ao catolicismo institucional. Não havia uma oposição aos padres, e quando estes apareciam – por ocasião das desobrigas (Visita periódica feita a regiões desprovidas de clero por padres, com o fim de desobrigar os fiéis.) ou missões populares – eram acolhidos e festejados. Porém a dinâmica dessa religiosidade colocava de lado a presença de um dos membros do da Igreja oficial.Sendo assim em determinadas situações os próprios fieis faziam-se de sacerdotes e realizavam batizados,orações de cura,bênçãos,ritos de passagem,enterros,ou como dizia Carlos Brandão resto da vida de fé ficava por conta dos  recursos miúdos dos objetos simbólicos de fé (BRANDÃO,1980,p.185),Este catolicismo quase chega a constituir-se  um pára-sistema religioso setorialmente autônomo frente a uma Igreja que ele sempre se reconhece parte.

 

 

Esse catolicismo laico, típico do campo e de áreas afastadas sofreu o embate violento da assim chamada “Romanização”,que foi uma tentativa de unificar as igrejas e paorquias do mundo inteiro aos moldes europeus de Roma.

 

Ao final do século XIX, a Igreja no Brasil estava vivendo sob égide das discussões sobre a reforma católica, que se apresentou como um “esforço de modernização das estruturas da Igreja luso-brasileira”, em pelo menos três aspectos primaciais: reforma dos hábitos dos clérigos, colocando o celibato como uma obrigação a ser seguida por esses religiosos, além de direcionar as suas práticas para o âmbito estrito da religião; reformar os hábitos religiosos da população brasileira, que praticava um catolicismo devocional, também denominado de familiar, apresentando um catolicismo mais clerical, “com ênfase no aspecto sacramental, segundo o espírito tridentino;” Além disso, o movimento reformista significou uma estratégia para expandir o catolicismo clerical no Brasil no período do Império para fazer frente a outras religiões, em especial, ao protestantismo.(PEDRO,1988.p,123)

 

 

O catolicismo em meados dos anos de 1920 ao inicio de 1960, influenciado por teólogos, tentaram viabilizar a doutrina, romanizando-a, tentando organizá-la segundo os ditames da Cúria Romana, aos moldes do catolicismo frio da Europa; iniciou-se os processos de represálias as festividades populares tais como o reisado, procissões organizadas por leigos, ou confrarias, folias de Reis, Maracatu, roda de São Benedito entre outras festividades em honra a algum santo, a Virgem Maria ou a Jesus Cristo. O processo de Romanização foi forte bastante para combater o catolicismo popular, mas não o suficiente para implantar a forma romana na grande massa dos católicos (PEDRO, 1988 p.121) Este movimento ficou conhecido como Neocristandade.

 

A fase da neocristandade, dentre outras características, pode ser analisada como período em que a igreja católica redefiniu seu papel social e político ao fazer a intermediação entre o Estado e a sociedade. Com este posicionamento, a Igreja manteve uma relação de proximidade com o Estado, com as denominadas “classes dirigentes”, além de apresentar um ideário sobre as relações sociais, as quais deviam ser regidas por princípios católicos num esforço de re-cristianização da sociedade hodierna. Seu intuito era de construir uma (neo) Cristandade, em que, por vezes, “[…] terminou por identificar catolicidade com cidadania e por constituir uma comunidade marcada pelos valores disciplinares do catolicismo” A fase da neocristandade, dentre outras características, pode ser analisada como período em que a igreja católica redefiniu seu papel social e político ao fazer a intermediação entre o Estado e a sociedade. Com este posicionamento, a Igreja manteve uma relação de proximidade com o Estado, com as denominadas “classes dirigentes”, além de apresentar um ideário sobre as relações sociais, as quais deviam ser regidas por princípios católicos num esforço de re-cristianização da sociedade hodierna. Seu intuito era de construir uma (neo) Cristandade, em que, por vezes, “[…] terminou por identificar catolicidade com cidadania e por constituir uma comunidade marcada pelos valores disciplinares do catolicismo” (PEREIRA, 2008, p.22)

 

 

No decorrer do século XX, o catolicismo oficial assim como as demais instituições religiosas tradicionais encontrava-se num momento de grande crise e declínio. É algo que se relaciona com a progressiva afirmação de uma “Sociedade pós-tradicional” (HERVIEU-LÉGER, 1999.p. 53-61)que colocava em questão a forma usual de preservação da tradição e exige processos criativos de sua reinvenção e inserção no tempo. Para isso foi-se pensado  e trabalhado no pontificado de João XXIII e Paulo VI,essa dinâmica que visava atualizar  e levar ao povo a mensagem do evangelho  e se adaptar a dinâmica do mundo moderno.Sobre isto nos diz João Paulo II:

A Igreja, com a sua doutrina social, não só não se afasta da própria missão, mas lhe é rigorosamente fiel. A redenção realizada por Cristo e confiada à sua missão salvífica é certamente de ordem sobrenatural. Esta dimensão não é expressão limitativa, mas integral da salvação. O sobrenatural não deve ser concebido como uma entidade ou um espaço que começa onde termina o natural, mas como uma elevação deste, de modo que nada da ordem da criação e do humano é alheio ou excluído da ordem sobrenatural e teologal da fé e da graça, antes aí é reconhecido, assumido e elevado: “Em Jesus Cristo, o mundo visível, criado por Deus para o homem (cf. Gên 1, 26-30) — aquele mundo que, entrando nele o pecado, “foi submetido à caducidade” (Rm 8, 20; cf. ibid., 8, 19-22) — readquire novamente o vínculo originário com a mesma fonte divina da Sapiência e do Amor. Com efeito,  “Deus amou tanto o mundo que lhe deu o seu Filho unigênito” (Jo 3, 16).  Assim como no homem-Adão este vínculo foi quebrado, assim no Homem-Cristo foi de novo reatado (cf. Rm 5, 12-21)”. (JOÃO PAULO II,2004 p.31)

 

 

Esta tentativa de elitização da religisiodade popular gerou revolta e afastamentos, mas o que aconteceria mais tarde em 1969 a 1970 mudaria os rumos do catolicismo no Brasil e especificamente na cidade de Parnaíba,quando a Teologia da Libertação,entrou em ação no meio do povo, mudando hábitos tradicionais do catolicismo.

 

(…) a partir da década de 1960, paradoxalmente ao abraçar a opção preferencial pelos pobres, a Igreja, em seu esforço de modernização, ainda uma vez progressivamente se afastaria do povo, ao desritualizar suas práticas litúrgicas. Fazendo o sacerdote voltar-se de frente para o público dos fiéis, ela o faz de certo modo voltar às costas para o Cristo, a Virgem e os santos do altar, nos quais o catolicismo tradicional sempre vira os símbolos de sua fé. Abandonado o latim e os solenes responsórios do canto gregoriano, substituído o órgão pelo violão, e os cantos devotos que falavam de Deus distante, mas familiar e acolhedor, pronto a ouvir e consolar as aflições dos homens, pelas novas canções militantes que convocam cada um à luta para que o Reino de Deus se realize na história, no discurso profético da Teologia da Libertação, o catolicismo perderia a antiga magia da fé tradicional que lhe proporcionavam suas celebrações revestidas de pompa. Perderia assim o encanto solene de sua liturgia, o esplendor de suas procissões e a alegria de suas festas que, cortando transversalmente a história, na longa duração sempre foram os meios pelos quais as grandes massas do povo, bem ou mau, se cristianizaram, ou reinterpretaram a fé católica na lógica de outras cosmologias afro-ameríndias. (PEREIRA, 2008, p.117)

 

 

Pode-se perceber neste contexto a quebra de paradigmas, que incrivelmente foi conseqüência de outra ruptura, que não era esperado. A tentativa de reinventar os valores religiosos gerou uma quebra, um choque nas mentalidades. Destaco aqui um trecho do documento concilias Sacrossantum Concilium:

Pareceu bem aos Padres determinar, a este propósito, o que segue:

  1. A Igreja. Nunca considerou um estilo como próprio seu, mas aceitou os estilos de todas as épocas, segundo a índole e condição dos povos e as exigências dos vários ritos, criando deste modo no decorrer dos séculos um tesouro artístico que deve ser conservado cuidadosamente. Seja também cultivada livremente ‘na Igreja a arte do nosso tempo, a arte de todos os povos e regiões, desde que sirva com a devida reverência e a devida honra às exigências dos edifícios e ritos sagrados. Assim poderá ela unir a sua voz ao admirável cântico de glória que grandes homens elevaram à fé católica em séculos passados. 124. Ao promoverem uma autêntica arte sacra, prefiram os Ordinários à mera suntuosidade uma beleza que seja nobre. Aplique-se isto mesmo às vestes e ornamentos sagrados. Tenham os Bispos todo o cuidado em retirar da casa de Deus e de outros lugares sagrados aquelas obras de arte que não se coadunam com a fé e os costumes e com a piedade cristã, ofendem o genuíno sentido religioso, quer pela depravação da forma, que pela insuficiência, mediocridade ou falsidade da expressão artística. Na construção de edifícios sagrados, tenha-se grande preocupação de que sejam aptos para lá se realizarem as ações litúrgicas e permitam a participação ativa dos fiéis. 125. Mantenha-se o uso de expor imagens nas igrejas à veneração dos fiéis. Sejam, no entanto, em número comedido e na ordem devida, para não causar estranheza aos fiéis nem contemporizar com uma devoção menos ortodoxa. (PAULO VI,1963,p.18)

 

Nas palavras do pontífice,percebemos que ele descreve que o anseio da novidade é algo intriseco da própria instituição.Neste documento denominado “Sacrossantum Concilium” vigorou neste termos as transformações litúrgicas e sacramentais do catolicismo moderno.

 

 

 

CAPÍTULO II

 

O BURBURINHO NOS ALTARES PARNAIBANOS.

 

 

2.1. O conceito de história oral

 

Com as transformações ocorridas na cidade de Parnaíba devido às aplicações do Concílio Vaticano II, muitos membros da estrutura eclesial decidiram abandonar a religião. Este tem sido a minha sina em questionar o porquê dessa fuga e a ida para o protestantismo pentecostal que acendia muito aqui desde o início dos anos de 1930. Para isso o uso de entrevistas e depoimentos3 são de suma importância,porém antes de destacar e apresentar os depoimentos vou destacar a importância da história oral e da memória. Neste contexto evidenciamos que a “Nossa memória não se apóia na história apreendida, mas na história vivida. Por história, devemos entender não uma sucessão cronológica de eventos e de datas, mas tudo o que faz com que um período se distinga dos outros, do qual os livros e as narrativas em geral nos apresentam apenas um quadro muito esquemático e incompleto.” (HALBWACHS. 2006 p.77). Neste contexto a história oral está vinculada a memória.Mas nós nos esbarramos na perspectiva de que a subjetividade do individuo como agente produtor de história.Porém convém dizer que segundo Jacy Alves Seixas:

 

Toda memória é fundamentalmente ‘criação do passado’: uma reconstrução engajada do passado (muitas vezes subversiva, resgatando a periferia e os marginalizados) e que desempenha um papel fundamental na maneira como os grupos sociais mais heterogêneos apreendem o mundo presente e reconstroem sua identidade, inserindo-se assim nas estratégias de reivindicação por um complexo direto de reconhecimento. O “que é aqui colocado em primeiríssimo plano é, portanto, a relação entre memória e (contra) poder, memória e política”. A memória é ativada visando, de alguma forma, ao controle do passado (e, portanto, do presente). Nessa abordagem, a função da memória, potencializada particularmente nos momentos de crise e rupturas históricas, é a de servir à história, o que se aproxima do enfoque de Pierre Nora – a da noção de ‘memória historicizada’ -, ainda que se diferenciem sob vários outros aspectos “(SEIXAS, 2006, p 58)

 

Esta maneira de fazer história, ao valorizar o estudo dos processos de longa duração.

 

 


3 Sobre História Oral ver a coletânea de artigos organizados por FERREIA, Marieta de Moraes; AMADO, Janaína. Usos e abusos da História Oral. Rio de janeiro: Fundação Getúlio Vargas, 1999.

Atribuía às fontes seriais e às técnicas de quantificação uma importância fundamental. Em contrapartida, ao desvalorizar a análise do papel do indivíduo, da conjuntura, dos aspectos culturais e políticos, desqualificava o uso dos relatos pessoais, das histórias de vida e das biografias. Condenava a sua subjetividade, levantava dúvidas sobre as visões distorcidas que apresentavam, enfatizava a dificuldade de se obter relatos fidedignos. Alegava-se que os depoimentos pessoais não podiam ser considerados representativos de uma época ou de um grupo, pois a experiência individual expressava uma visão particular que não permitia generalizações. Não é preciso dizer que estava excluído as possibilidades de incorporação das fontes orais ao campo de investigação do historiador. Este modelo de história estabelecia ainda uma desconfiança em relação ao estudo dos períodos recentes, definido por alguns historiadores como a história do tempo presenteUm deles é  Pierre Nora:

 

 

A história do tempo presente tem forçosamente de lidar com testemunhas vivas, que podem vigiar e contestar o pesquisador, afirmando sua vantagem por terem presenciado o desenrolar dos fatos. Mas o que se sustentava era a necessidade do distanciamento temporal do pesquisador frente ao seu objeto, através daquilo que os historiadores costumam chamar de visão retrospectiva. Debruçando-se apenas sobre processos históricos cujo desfecho já se conhecia, a história criava limitações para o trabalho com a proximidade temporal, por temer que a objetividade da pesquisa pudesse ficar comprometida. Esta forma de conceber a história era também dominante entre as universidades e os pesquisadores brasileiros, e isto evidentemente criava resistências profundas à aceitação do uso das fontes orais e, mais ainda, ao desenvolvimento da metodologia da história oral. (NORA. 1993.p.165)

 

 

 

Trabalhar com história oral significava enfrentar todo tipo de críticas e questionamentos, especialmente se o tema estudado se relacionasse com política e religiosidade, como é o nosso caso. A ele se junta Regina Gonçalves, comentando Halbwachs.

 

O ponto de partida de Halbwachs para seus estudos sobre a memória é completamente diferente do de Bérgson. Para ele, a memória só pode ser compreendida a partir do plano social, ela só existe no interior de um grupo social e assim o é porque, na verdade, a memória é por ele concebida como reconstrução do passado inspirada, exigida pelo presente. A principal influência de Halbwachs foi, sem dúvida alguma, a obra de Émile Durkheim, o primeiro sociólogo a realizar pesquisa de campo […]. A sociedade concebida por Durkheim é, em primeiro lugar, uma ‘massa social’.( NORA. 1993.p.166)

 

Baseando-se nestas falas o uso da memória e da oralidade como recurso de pesquisa torna-se essencial para o tema da religiosidade o qual estou discorrendo neste trabalho monográfico.

 

2.2 A religiosidade no campo da história

 

No âmbito da religião verifiquei que a religiosidade popular,consituidas do sincretismo e de valores as vezes contrários aos intistucionais,se materializa e evolui mais rápido que a religiosidade institucional,que é engessado na sua hierarquia e na burocracia religiosa, lembrando que a mesma se atualiza vagarosamente, em virtude de suas emergências normativas e políticas, algumas um experiências e práticas religiosas populares e protestantes, agindo em plano transgressor e, subversivo ou residual às normas religiosas, mesmo desafiadoras e de má-vontade, se atualizaram e passaram a reivindicar reconhecimento no campo religioso.

Destaco aqui a função da pós-modernidade, como força motriz da desconstrução do conceito mesmo da religiosidade. O pós-modernismo está associado à decadência das grandes idéias, valores e instituições ocidentais: Deus, Ser, Razão, Sentido, Verdade, Totalidade, Ciência, Fé, Sujeito, Consciência, Produção, Estado, Revolução, Família. A partir disso,mais do que uma realidade já cristalizada,a pós-modernidade se constitui em um estado de espírito que vai se fazendo presente nos diferentes setores da vida humana. Ela se apossa do lugar até então ocupado pelas grandes filosofias e doutrinas que explicavam a vida a sociedade, apontando esperançosamente para o futuro.E a mensagem que ela traz consigo é que não há mais lugar para as ilusões que remetem a dias melhores no futuro.

 

Desde a Grécia antiga, as filosofias são discursos globais, totalizantes, que procuram os primeiros princípios e os fins últimos para explicar ordenamente e o Universo, a natureza, o Homem. A pós-modernidade entrou nessa: ela é a valsa do adeus ou do declínio das grandes filosofias explicativas, dos grandes textos esperançosos como o cristianismo (e sua fé na salvação). O Iluminismo(com sua crença na tecnologia e no progresso),o marxismo(com sua aposta numa sociedade comunista).Hoje,os discursos globais e totalizantes não atraem ninguém.Dá-se um adeus às ilusões(SANTOS,1986.p.72)

 

 

Mas quais as bênçãos e maldições desta nova eram conhecidas como pós-modernidade?Antes de responder este questionamento, vou destacar as influencias do mundo moderno e do advento da pós-modernidade. Iniciemos com Karl Marx:

 

Todas as relações fixas, enrijecidas, com seu travo de antigüidade e veneráveis preconceitos e opiniões, foram banidas; todas as novas relações se tornam antiquadas antes que cheguem a se ossificar. Tudo o que é sólido desmancha no ar, tudo o que é sagrado é profanado, e os homens finalmente são levados a enfrentar (…) as verdadeiras condições de suas vidas e suas relações com seus companheiros humanos.(VALLE.1997,p38)

 

Marx, vê no advento desta modernidade, uma crescente fugacidade, mas ainda presa, ao homem, firme a regras invisíveis. Porém no seu discurso materialista, vê-se o surgimento da fugacidade dos eventos da história, crê-se neste fato que a história humana, é constituída de inúmeros paradigmas que se rompem.

 

Nós cantaremos as grandes multidões excitadas pelo trabalho, pelo prazer e pela sublevação; nós cantaremos as marés multicoloridas e polifônicas da revolução nas capitais modernas; nós cantaremos o fervor noturno dos arsenais e dos estaleiros resplandecendo sob violentas luas elétricas; gulosas estações ferroviárias que devoram serpentes emplumadas de fumo; fábricas suspensas nas nuvens pelos cordéis enrolados de suas fumaças; nuvens que cavalgam os rios como ginastas gigantescos, brilhando ao sol com uma cintilação de facas; vapores aventureiros (…) locomotivas de peito proeminente (…) e a luz insinuante dos aeroplanos (etc.)( NIETZSCHE,1957,p.91)

 

Para alguns Nietzsche, um dos precursores do que seria o pós-modernismo,devido a sua imensa colaboração na descontrução dos valores e conceitos tipicamente ocidentais e judaicos-cristã,com  o fim deste connceitos,viu-se a nescessidade de esperar a chegada de uma nova sociedade,atípica e cheia de novos valores,redigidos pelo juizo do homem.

 

Ao propor que uma outra vida lá no céu,seria o Fim do homem,o Cristianismo negou a vida aqui na Terra e com ela negou o corpo,o prazer,aalegria,o presente .Além disso,um Deus punitivo plantou no coração do homem a culpa-sua flor mais nefasta.A suposta unidade do cosmo levou a ciência a opor o Homem(o conhecedor)à Natureza(o conhecido).Ao mesmo tempo,fragmentou a Natureza em campos de conhecimento(Física,Química,Biologia)e decretou pela matématica,a quantificação do mundo natural e social para tomar as coisas previsiveis,isto é,progamaveis,matando assim a eterna novidade do futuro,o movimento sempre incerto com que jorra a vida.Escravizando-se à Verdade,enfim,o homem ocidental quis governar sua existnência só pela razão,que supostamente mergulha no ser das coisas,traça uma moral racional,quando na realidade a vida é também instinto e emoção,força e imaginação,prazer  e desordem,paixão e tragédia.[…]Para superar o niilismo-que está pondo abaixo os valores,perseguida por Nietzsche ergueria uma cultura voltada para o prazer na alegria,o corpo integrado à imaginação poética,à arte em suma.Nem a religião,nem a ciência,nem a filosofia,,mas a arte ,com sua embriaguez dos sentidos,enraizada no presente,mas aberta ao futuro,a arte seria o fio condutor para um novo estilo de vida.Neste estilo quanto aos Fins: nada de Deus,nem de Estado,mas cada um vivendo sem sobreviver,realizando o melhor de si como obra de arte aqui e agora.Quanto à Unidade;nada de conhecimento  científico de programação,pois o cosmos,como  a vida,é um jogo indefinido,aberto,sem direção e o pluralismo,isto  é ,diversidade  das formas,dos caminhos é a sua lei.quanto à a verdade,nada de conceitos universais e eternos ,mas a sabedoria do corpo,o valor do erro e da ilusão,a afirmação segundo  a perspectiva de cada um,o sujeito deixando-se rolar pelo tempo guiado pelo pragmatismo dos instintos,num ego a flutuar de expêriencia em expêriencia,sem se preocupar com uma identidade fixa(SANTOS,1986,P.76-77)

 

 

Neste ínterim percebemos o quanto a religião se tornou um foco discutível das relações pessoais e institucionais. Com o advento da pós-modernidade,o meio religioso,foi perdendo o seu foco,sobreveio então a crescente desvalorização da religiosidade.

 

Na medida em que o utilitarismo se impôs e passou a governar as atividades das pessoas, processou-se uma enorme revolução no campo dos símbolos.   Alguns acham que isto ocorreu por entenderem que os símbolos são cópias, reflexos, ecos daquilo que fazemos. Se isto for verdade, os símbolos não passam de efeitos de causas materiais, eles mesmos vazios de qualquer tipo de eficácia. Acontece que, como já sugerimos os símbolos não são meras entidades ideais. Eles ganham densidade, invadem o mundo e aí se colocam ao lado de arados e de armas. Por isto rejeito que eles sejam uma simples tradução, numa outra linguagem, das formas materiais da sociedade e suas necessidades vitais.  O que necessidades vitais.  O que ocorre é que, ao surgirem problemas novos, rela­tivos à vida concreta, os homens são praticamente obrigados a inventar receitas conceptuais novas. Produziu-se, então, uma nova orientação para o pensamento, derivada de uma vontade nova de manipular e controlar a natureza. O homem medieval desejava contemplar e compreender. Sua atitude era passiva, receptiva. Agora a neces­sidade da riqueza inaugura uma atitude agressiva, ativa, pela qual a nova classe se apropria da natu­reza, manipula-a, controla-a, força-a a subme­ter-se às suas intenções, integrando-se na linha que vai das minas e dos campos às fábricas, e destas aos mercados. E silenciosamente a burguesia triunfante escreve o epitáfio da ordem sacral agonizante: “os religiosos, até agora, tem buscado entender a natureza; mas o que importa não é entender, mas transformar”.

Que ocorreu ao universo religioso?O universo religioso era encantado. Um mundo encantado abriga, no seu seio, poderes e possibi­lidades que escapam às nossas capacidades de explicar, manipular, prever. Trata-se, portanto, de algo que nem pode ser completamente com­preendido pelo poder da razão, e nem completa­mente racionalizado e organizado pelo poder ‘eu trabalho. mas   como   poderia   o   projeto   da   burguesia sobreviver   num  mundo  destes, obscurecido por mistérios   e   anarquizado   por   imprevistos?   Sua intenção era produzir, de forma     racional, o crescimento da riqueza. (ALVES,1989.p,46)

 

 

2.3 A religião na pós-modernidade

 

Com o passar do tempo os conceitos de Tempo e Espaço, finito e infinito, presente e futuro, absoluto e relativo foram ganhando forma e assumindo lugar na sociedade, sociedade esta que aos poucos vem constituindo novos valores, ou Contra-valores que se tornam vigentes na sociedade humana a partir da década de 1960.Nesta década começou a despontar aquilo que hoje chamamos de “Pós-Modernidade”,4 uma experiência inicial que tinha como objetivo quebrar os paradigmas  vigentes,mas neste caso em especial a anulação do absoluto foi o marco mais essencial para a desconstrução do discurso religioso.O mundo pós-moderno é um sem   referenciais,pois sua presença o faz,lamentavelmente sem memória de todas as coisas adquiridas no passar da modernidade.Até mesmo o poder das ciências exatas,perdeu o seu brilho.Os deslocamentos da religiosidade,na pós-modernidade,nos leva a entender e compreender o por quê do imenso crescimento das igrejas neopentecostais no Brasil,nas décadas de 1960,1970 e 1980 :As igrejas neopentecostais se movimentam num tempo  e espaço próximo ao pós-moderno.A produção do seu discurso e de suas práticas  está inserida neste contexto,atualizando com freqüência,os discursos,os ritos e as práticas cultuais,os espaços de tempo e da forma de viver socialmente.

 

Na linha do discurso, identificamos uma alteração substancial. O discurso religioso, tanto na sua versão histórica (protestantismo de missão), como na sua versão mística (Pentecostalismo clássico), permaneceu alicerçado numa metanarrativa fundamentalista. A primeira herdou da escolástica protestantes os dogmas racionais da experiência com o sagrado.A segunda herdou do protestantismo o puritanismo e o pietismo que,em ambos os casos,se Consolidaram em metanarrativas das Experiências religiosas. Tanto o Protestantismo histórico como o pentecostal clássico estavam fundamentados na universalidade do discurso divino relevado na Bíblia. Este tinha toda a autoridade e era a partir dele que toda a vida do homem religioso deveria ser pautada. (JARDILINO, 2003.p,91)

 

 

Todavia,mesmo que se possa entender a pós-modernidade como uma evolução da modernidade, a mesma na verdade representa a epifania de inúmeras transformações que recriariam o homem de uma forma nunca vista.

 

 

 

Figura 4: Protestante na praça chamando a atenção dos trausentes


4 A pós-modernidade representa uma frustração com o discurso iluminista e suas grandes idéias, que, apesar dos grandes avanços científicos que proporcionaram, mostraram-se incapazes de pôr fim às mazelas da sociedade e de produzir um estado de permanente bem-estar, edificado pela razão humana (GREUEL, 2008, p.10)

 

 

A mesma pós-modernidade incitou o homem a se tornar um sujeito autocentrado em sim mesmo e apaixonado por si mesmo. A cultura pós-moderna produziu um cotidiano que pode ser identificado pelo que é usual,descartável.Para ela tudo é descartável,tudo é sólito,desubstancializado,relativo e escravo de si mesmo.

 

(…) Estamos passando de uma era de “grupos de referência” predeterminados a outra de comparação universa, em que o destino dos trabalhadores de autoconstrução individual está endêmica e incuravelmente subdeterminado, não está dado de antemão tende a sofrer numerosas e profundas mudanças antes que seu trabalho alcancem seu único fim genuíno: o fim da vida do individuo. (BAUMAN.2001.p, 14)

 

 

Neste ínterim os valores cultuados do Iluminismo, que adquiriram destaque no mundo inteiro e foram modelos de inúmeras técnicas e ciências no mundo inteiro, foram aos poucos se tornando obsoletas, sendo substituída pela multiplicidade de valores e conceitos, que forma florando da efervescência dos bombardeios que a sociedade sofreu nas décadas de 1960 a 1980. Nesta mistura,o Oriente se mistura ao Ocidente ,o  cristão com o  budista,o hindu ao judeu.Esse “politeísmo de valores” é uma das características essenciais do pluralismo contemporâneo.Vale ressaltar o modo particular como o judaísmo e depois o cristianismo lutaram  de forma firme e intrasigente contra este evento de adição de milhares de novos valores.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 5: Exemplo característico de politeísmo religioso: Procissão de São Francisco, conhecidos por algumas pessoas, como Senhor São Francisco.

 

 

Mas até mesmo o cristianismo, que se põe firme diante dos avanços da modernidade dos valores e conceitos, tem suas falhas, como mostrado por inúmeros filósofos e sociólogos, a veneração dos santos e a sua diferença no culto a Deus. Segundo Max Weber:

 

A sabedoria popular nos ensina que uma coisa pode ser verdadeira ainda que não seja, e quando não é realmente nem bela nem santa, nem boa. Mas estes são os casos mais elementares da luta que põe os deuses das diferenças ordens e dos diferentes valores(WEBER,1959.p.93)

Nesta fala de Weber, vemos que ele situa o politeísmo de valores e de religiões no seio do popular. É sabido  que é no meio da cultura popular que ocorre o fenômeno do sincretismo, da revolução  de anseios humanos,pois chega um momento da história do seu humano e de toda e qualquer sociedade ,que as explicações científicas e concretas,de usuais resoluções  e concretização dos próprios anseios e deseja um anseio pelo mistério e do insondável.O desejo pelo religioso,pela existência de Deus é intrínseco.

 

Pertence igualmente aos direitos da pessoa a liberdade de prestar culto a Deus de acordo com os retos ditames da própria consciência, e de professar a religião, privada e publicamente. Com efeito, claramente ensina Lactâncio, “fomos criados com a finalidade do prestarmos justas e devidas honras a Deus, que nos criou; de só a ele conhecermos e seguirmos. Por este vínculo de piedade nos unimos e ligamos a Deus, donde deriva o próprio nome de religião”.(4) Sobre o mesmo assunto nosso predecessor de imortal memória Leão XIII assim se expressa: “Esta verdadeira e digna liberdade dos filhos de Deus que mantém alta a dignidade da pessoa humana é superior a toda violência e infúria, e sempre esteve nos mais ardentes desejos da Igreja. Foi esta que constantemente reivindicaram os apóstolos, sancionaram nos seus escritos os apologetas, consagraram pelo próprio sangue um sem número de mártires (JOÃO XXIII,1962.p 13)

 

 

O progresso científico perdeu seu encanto e gerou  situações singulares : a irrupção de um monoteísmo da razão  e de um politeísmo  construtor de valores,em que se tratando de valores ,cada sujeito poderia  ter os seus próprios(CASTINEIRA,1997,p.54-55) O lema do iluminismo e seus arraigados conceitos não conseguiram êxito em proporcionar à humanidade  um tempo  permanente de bem-estar  e  paz indissolúvel,além de um progresso infinito e grandioso.Com isso ,a pós-modernidade herdou homens e mulheres vitimados pelo desencanto em relação à vida e ao futuro.Convêm dizer que este desencanto já vinha sendo sentido,quando as mazelas da guerra  vieram a tona e progresso cientifico,antes usado para dignificar o homem,foi usado para destrui-lo,atualizando  a máxima de Hobbes:”o Homem é lobo do Homem”.Para isso a religião esquecida durante décadas retornou  a cena.Quando o desencanto com a ciência,a religião se tornou mais adequada,pois intrinsecamente,a mesma tem por principal objetivo reencantar e dar sentido a vida.quanto mais o a sociedade adoecia no pessimismo,a religião3 ganhou mais e mais força.

 

O ideal de felicidade enuciando pelo Iluminismo, pelo qual o homem dominaria a naturezae constituiria uma sociedade igualitária pelo domínio da razão cientifica, já não provoca mais a certeza de outrora. Não é por acaso, certamente, que assistimos, nos dias de hoje a um vigoroso processo de reevangelização do mundo, através do qual se retorna à religião como forma de desamparo […] Assim, nos interstícios do mundo desencantado, onde a ideologia redentora do Iluminismo não tem mais qualquer apelo existencial ,o desamparo do sujeito se recoloca,assumindo formas vigorosas e desesperantes. A busca de proteção  face à angustia se empreende pelas formas de religiosidade que se apresentam como novas ofertas de salvação(BIRMAN,2000,p.228-230)

 

 

Entender a sociedade sem religião é impossível, por isso peço ajuda a Emile Durkheim:

A produção intelectual de Émile Durkheim (1858-1917) demonstra bem este percurso, ao partir da análise da divisão social do trabalho, passar pela definição das regras do método sociológico e chegar ao trabalho que aqui mais nos interessa As formas elementares da vida religiosa, publicado em 1912. Ao procurar estabelecer a sociologia como disciplina objetiva e positiva, Durkheim absorveu a base evolucionista da investigação comteana, tentando formular uma metodologia científica para a apreensão das leis de funcionamento das sociedades e das relações entre os diferentes grupos que as compõem. Partindo da análise dos casos mais simples para o mais complexo, sendo este último o estágio vivido pela sociedade européia de seu tempo, o autor pretende alcançar as leis que regem o funcionamento orgânico das sociedades e compreender suas representações coletivas, vistas pelo estudioso francês como resultado de uma “consciência coletiva”, diferente de fenômenos psicológicos individuais. Durkheim postula a autonomia dos fatos sociais, entendendo que estes devem ser analisados como respostas coletivas, concretas comuns e sociais anteriores. Este foi o raciocínio empregado em seu trabalho sobre a religião, procurando compreender seus elementos constitutivos através da observação e descrição da vida religiosa dos aborígines australianos. Ao debruçar-se sobre o sentido do sistema totêmico — no qual um animal, vegetal ou qualquer outro objeto é considerado como ancestral ou símbolo de uma coletividade (tribo, clã), sendo seu protetor e objeto de tabus e deveres particulares — Durkheim acreditava não só estar diante da forma mais elementar de crença religiosa, como ter encontrado a explicação sociológica da religião. Adotava, assim, os preceitos evolucionistas do positivismo, bem como reforçava, a partir de uma metodologia de análise considerada científica, a marca etnocêntrica das observações européias sobre as sociedades primitivas, em geral, e sobre a vida religiosa dessas comunidades em particular. Embora já considerasse suas formas de expressão como religião (e não mais “magia”), emprestava-lhes um sentido definido a partir dos olhos e da vivência do observador, sem ainda considerar a possibilidade de racionalidades distintas para sociedades diferentes e contemporâneas. (DURKHEIM, 1977, p.456)


4 Para Rudolf Otto: “a Religião se cria, na expectativa do ser humano com o sagrado”. Para ele,o sagrado  é uma categoria que demonstra a manifestação do numem,o poder divino.A essência  de qualquer religião é a experiência  de uma realidade  outra,um outro absoluto,completamente diferente de qualquer experiência humana.Este fenômeno se constitui  em uma realidade  absolutamente  diferente  da natural,cujas   características  são de um “mysterium tremendum”.Já a religiosidade é um comportamento responsivo à experiência  do numismo  do inquietante,que ao mesmo tempo fascina e assusta.Assim  podemos entender a religiosidade como o modo pelo qual esta resposta  do ser humano  ao sagrado se articula(OTTO, 2007.p.37-63)

A religião e a experiência religiosa podem se transformar numa importante ferrramenta de constituição da identidade e da subjetividade do sujeito, propiciando-lhe uma existência com substância e com sentido, além de ser uma força capaz de ajudá-lo no enfretamento dos desencantos da existência humana. Sabemos,porém que ela também pode se transformar num elemento de alienação e subjugação.

 

Para este novo sujeito que surgia do iluminismo, a religião desvia para a esfera do privado. […] Disto resulta uma nítida separação entre o particular e o público, marcado pelas relações de intercâmbio. A religião também passará à esfera do particular, e cada um fará uso dela conforme as próprias necessidades, embora sem que influa em absoluto na vida concreta da pessoa. ( VATTIMO, 2004, p.114).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CAPÍTULO III

O CONCÍLIO VATICANO II EM PARNAÍBA.

 

3.1. As primeiras transformações no mundo católico piauiense

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A cidade de Parnaíba na década de 1960, ainda possuía aspectos extremamente ruralistas e sua população, em maioria era semi-analfabeta. Em 1962 em Roma, ocorria o Concilio Vaticano II, que buscava a transformação da ação Eclesial, Junto ao povo, Em pleno Regime Militar o Brasil estava preso ao tradicionalismo católico e ao negligente, repressora e alheio governo militar; boa parte da população não lutava por seus direitos e poucos tinham conhecimento disso. Em vista a ação da igreja visou o povo simples, do campo e da cidade, orientando-o em meio a sermões, exéquias, formações missas e novenas, o valor da igualdade da educação e da justiça. Inspiradas no método “Paulo Freire” de alfabetização de adultos, executavam uma metodologia que levasse da conscientização à ação; criando desde grandes lideres, a aguerridos militantes. A cidade de Parnaíba recebeu um pouco dessa educação. Principalmente quando foi desmembrada do Maranhão,tendo em seu seio a sede de uma nova diocese.Eis  o documento original:

 

Pio Bispo. Servo de Deus para a perpetua memória.

No intuito de melhor promover o bem e de modo mais adequado, cuidar do governo da grei do Senhor costuma a Sé apostólica dividir as dioceses de grande extensão territorial constituindo novas dioceses da grande extensão territorial constituindo novas dioceses a ser confiadas a outros prelados. Assim, de bom grado, foi que recebemos as súplicas de Nosso Venerável irmão Severino de Melo, Bispo do Piauí, o qual desejoso de mais eficazmente prover a salvação das almas, rogou-Nos Separássemos de sal Vastíssima Diocese várias paróquias e com elas fossem criadas duas novas dioceses. Por isso, ouvidos os Nossos Veneráveis Cardeais da Santa Igreja Romana, preposto a Sagrada Congregação Consistorial, com o sufrágio do Nosso Venerável irmão Bento Aloísio Mazella, Arcebispo Titular de Cesárea de Mauritânia e Núncio Apostólico na Republica Brasileira, suprido quanto for necessário o consenso dos interessados, ou dos que tais se julgarem, depois de prudentemente examinadas todas as circunstâncias com o conhecimento certo de causa e usando Nossa Autoridade Apostólica. Desmembramos do território da Diocese do Piauí duas partes. Uma abrangendo nove paróquias a saber:Parnaíba,Luis Correia,Barras,Buriti dos Lopes,Pedro II,Piripiri,Piracuruca,Batalha e Porto Alegre;e a outra compreendendo as  seguintes paróquias:Oeiras,Jaicós,Patrocinío,Paulista,Picos,Floriano,Jerumenha e Simplício Mendes.Assim é que com estas duas partes tiradas ao território da diocese piauiense.Criamos e Constituímos duas novas dioceses,das quais ,a primeira,em vista de erigimos a sede episcopal na cidade de Parnaíba.Determinamos que se denomine Diocese de Parnaibana e consequentemente elevamos ao grau  e dignidade de Igreja Catedral,nela instalado a cátedra de seu bispo,a igreja paroquial ali existente,dedicada em honra de Nossa Senhora Mãe da Divina Graça.A outra parte também por Nós  elevada e constituímos  em diocese Queremos que.em vista de Erigimos a sede episcopal na cidade de Oeiras,seja chamada Diocese Oeirense e de igual maneira elevamos a categoria e dignidade de catedral onde o bispo terá sua cátedra,a igreja matriz ali existente consagrada  a Deus,em honra  de Nossa Senhora da Vitória.A estas duas recém-eretas Igrejas Catedrais e oportunamente aos bispos de Parnaíba e Oeiras,Concedemos todos os direitos,honras e insígnias e privilégios de que pelo Direito comum gozam outras Igrejas Catedrais do orbe católico,e os seus respectivos antistites4 e ao mesmo tempo oneramos ,também com os mesmos encargos e obrigações a que estão sujeitos os outros bispos residenciais.(CARVALHO,p.97.1980)

 

 

As pessoas das comunidades rurais e principalmente as de periferia próxima ao centro comercial, onde hoje vinga imponente a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima.Muniu-se desta nova doutrina, onde o homem evoluía das ladainhas ao patamar social Filosófico da política. Aprenderam a critica o sistema e criar meios de serem livres no País da opressão, da fome e da miséria. A partir destas atividades, surgiram as CEB’s, que a partir da reflexão sobre os problemas da família, do trabalho e do bairro, ajudaram a criar movimentos sociais para organizar sua luta: Associações de moradores, Luta pela Terra e também o fortalecimento da Classe operária.   A maior parte das populações periféricas da cidade eram semi-analfabetas. Conta de com poucas Paróquias e Padres, a Diocese Parnaibana decidiu adquirir mais uma paróquia para apascentar “as almas” daquela parte da cidade. Então em 1966, Dom Paulo Hipólito Instalou a Paróquia de Nossa Senhora de Fátima:

Aos sete dias do mês de Dezembro de mil novecentos e sessenta e seis Quarta feira da Segunda semana do advento e vigília da festa da Imaculada Conceição, sendo o sumo pontifície da Santa Igreja Católica, sua Santidade o Papa Paulo Sexto, ocupando o solo Episcopal da Igreja Parnaibana sua Excelência Reverendíssimo o Senhor Dom Paulo Hipólito de Sousa Libório, Presidente da República dos Estados Unidos do Brasil o Exmo. Senhor Marechal Humberto de Alencar Castelo Branco – Acadêmico Governador do Estado do Piauí o Exmo Dr. Helúdio Barros Nunes, o prefeitoMunicipal de Parnaíba, Exmo. Sr. Dr. Lauro Correia, as 20 hora, na Igreja de Nossa Senhora de Fátima, ainda em Construção realizou-se a instalação canônica a posse do primeiro vigário da nova paróquia de Nossa Senhora de Fátima confiada pelo Exmo. Revdmos. Senhor Bispo Diocesano aos padres da Congregação do Santíssimo Redentor da vice-província Irlandesa no Brasil (…)

(Parnaíba, 2 de dezembro de 1966 José Veras de Souza, Ata 1ª)

 

 

A juventude foi o principal foco da nova paróquia; por meio dela, os demais indivíduos seriam auxiliados – As comunidades carentes viviam em estado quase feudo, onde vigora as grandes propriedades.

Essas pessoas foram agrupadas em comunidades, separado-as por denominadores comuns, caracterização típica das CEB’s,que são na verdade,pequenos agrupamentos de leigos em comunidades rurais e urbanas,local onde se agrupa,trabalha e zela pelo cuidado da religião.


5 Título honorífico que se dava a bispos, padres,cônegos etc.Era usado preferencialmente quando queria exaltar a personalidade do clérigo,principalmente quando este assumia funções  de alto cargo.(AURÉLIO,2010.P.82)

 

 

 

 

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Figura 6. Igreja Matriz de Nossa Senhora de Fátima.

 

 

A catequese era a principal ferramenta educadora das pessoas, nela misturavam-se os catequistas recebiam formações religiosas, com embasamento da psicologia, antropologia, sociologia, pedagogia e demais ciências Humanas. Porque a meta da catequese é “conscientizar a sociedade para uma sólida fundamentação da fé” (DONZELLINI 1996, pg. 45). As crianças cresciam educadas a serem bons cristãos e cidadãos críticos a má sociedade “marcada pelo anonimato, massificação, impacto dos meios de comunicação social, consumismo, ateísmo e pelo indiferentismo religioso (DONZELLINI 1996.pg. 396). Mas mesmo diante desta tentativa de muitos indivíduos decidiram abandonar o catolicismo, uns para a crescente onda do ressurgimento dos cultos afro-brasileiros e maior parte, cheios da seiva cristã, aderiram ao movimento neopentencostal.

 

Um preço, porém deveria ser pago pelo catolicismo nesse processo. Longe da vida pública, da política e do compromisso real com os pobres e suas causas sociais, uma grossa massa de fiéis, ricos assim como pobres não mais se reconheceria nessa nova Igreja, vista por muitos como incapaz de lhes fornecer respostas quando as exigências da fé não encontravam uma equivalência necessária no plano da política, como ao se precisar do conforto diante das agruras da dor intima da perda pessoal ou da carência espiritual, no âmbito da vida privada. Sentindo-se abandonados à própria sorte,muitos deles  se bandearam para o lado do protestantismo então em plena  expansão ,e das religiões  afro-brasileiras,que enfim conquistavam reconhecimento e legitimidade no campo religioso no Brasil.(MONTES,2010.p.79-81)

 

 

Muitas dificuldades surgiram na implantação das comunidades. A educação que incentivava a autocrítica da população, não era aceita pelos patrões de algumas propriedades, além das crises causadas pelas enchentes e pela miséria, pois alguns viam na educação catequético-Laica um perigo para o conformismo tradicional que reinava nas regiões periféricas, onde a religiosidade, e misticismo e o tradicionalismo reinavam. No Piauí o numero de católicos era no papel e no censo muito alto, praticamente 98% eram praticantes do catolicismo, mas na verdade havia sim, um numero grande de pessoas que não praticavam o a religião ou optavam pela crescente protestantismo presente na nossa cidade. Aqui já existia  uma Igreja Presbiteriana,que veio junto com a família Clark,que eram ingleses.O povo brasileiro,e neste caso o povo parnaibana sempre foi acolhedor com  todos os conceitos protestantes,isto durou até meados dos anos de 1910e 1911 com a chegada da primeira leva de igrejas pentecostais.

 

Ao longo dos séculos, anglicanos, luteranos, metodistas, prebisterianos, batistas, congregações tradicionais do chamado “protestantismo histórico”, implantaram-se no Brasil, ganhando adeptos ao ritmo da imigração estrangeira, núcleos junto aos quais se enraizavam, e da formação de uma classe média urbana, mas sem um crescimento que pudesse inquietar a hierarquia católica. Depois, nas primeiras décadas do novo século chegariam ao país às primeiras igrejas pentecostais, a Congregação Cristã do Brasil, primeiro ,em 1910,e que aos poucos irá se implantar em meio à colônia italiana de São Paulo. No ano seguinte será a vez da Assembleia de Deus, criada por missionários suecos em Belém do Pará, dando continuidade à presença, marcadamente minoritária, dos protestantes no Brasil (CAMARGO, 1973, p.87)

 

 

O Brasil sempre foi um país,muito acolhedor,principalmente a raiz católica.Mas com as com a chegada destas novas comunidades,sempre foi importante vivenciar a fé e a vida

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

3.2 O movimento neopentecostal em Parnaíba: embate e fuga

 

 

O movimento neopentecostal ganhou forma em Parnaíba na década de 1930, com a chegada da Assembleia de Deus. Novas vertentes foram chegando na cidade de Parnaíba :na década de 1980  a Igreja do Evangelho Quadrangular se instalou na nossa cidade.a religiosidade católica,estava se reorganizando,principalmente nas áreas centrais da cidade.Nesta época o pároco,Monsenhor Antonio  Monteiro Sampaio,lutou contra essa presença adversária,assumindo o protestantismo como um dos inimigos do catolicismo,seguido do Kadercismo(pouco presente na cidade,somente em alguns centros freqüentados pela classe média) e do baixo Espiritismo(maioria na população,principalmente nas áreas mais afastadas da cidade),como eram então comumente designadas as religiões afro-brasileiras.Em 1946 o catolicismo ganhou mais força com a instalação do sua diocese e a chegada do seu 1º bispo,Dom Felipe Conduru Pacheco.

 

 

 

Figura 7: Dom Felipe Conduru Pacheco

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 8: Chegada de Dom Felipe Conduru Pacheco

 

 

Eis agora um relato de como foi à chegada do 1º bispo da nossa cidade:

 

Uma festa e tanto aquela. Depois de uma viagem cansativa de trem, Dom Felipe Condurú Pacheco, vindo de Teresina e passando por Piripiri, chegou a Parnaíba naquele dia 6 de julho de 1946 para no dia seguinte tomar posse como seu primeiro bispo. Milhares de pessoas vindas de todos os cantos da cidade e até de outras regiões estavam naquele dia em frente da Matriz de Nossa Senhora das Graças. O Bispado havia sido criado em 8 de outubro do ano anterior. e assim se deu a grande festa,era segundo  a opinião geral a realização de um sonho de muitas décadas,remontando o século XIX,mas que agora finalmente se tornava realidade,a instalação  do bispado de Parnaíba  com a posse de seu titular depois de ter sido criado  em setembro de 1945.Para  sua população e as entidades católicas  era a vitória sobre uma luta que tomou corpo em 27 de julho de 1898 quando foi entregue  ao papa Leão XIII um memorial com milhares de assinaturas solicitando a criação de um bispado no Piauí,mas com sede em Parnaíba.Sua segunda cidade mais importante .Mas o bispado piauiense foi criado com sede em Teresina em 1905.O Piauí,pelo menos eclesiasticamente estava separado do Maranhão.O primeiro bispo foi Dom Joaquim Almeida.Os parnaibanos continuaram lutando e muito conseguiram.Foram criadas comissões arrecadadoras de fundos para a compra do patrimônio da diocese.Em 1914 a Rádio Educadora de Parnaíba se juntava aos defensores da idéia.Toda a sociedade,liderada pelo padre Roberto Lopes Ribeiro se engajou na campanha.Nas escolas o entusiasmo pela campanha era imenso.Alunos e professores arrecadavam dinheiro para custear a compra da casa paroquial.As professoras do Grupo Escolar Miranda Osório conseguiram juntar um conto de réis,quantia muito grande para a época.Mas a emissora parnaibana era uma peça importante dentro da campanha ,todos os domingos ,no horário das 20h,uma personalidade fazia a defesa da medida de instalação do bispado.Professores,estudantes,comerciantes,trabalhadores,funcionários públicos,religiosos.O prefeito Mirócles Veras  e o professor Benedito Jonas Correia e até o escritos Berilo Neves telegrafou do Rio de Janeiro incentivando os parnaibanos.Agora aquela festa sem precedentes.O primeiro Bispo passando calmamente entre duas alas até alcançar o altar principal da Igreja de Nossa Senhora das Graças onde finalmente rezou  sua primeira missa como bispo de Parnaíba.Dentro da Igreja associações católicas, autoridades civis e militares, fiéis vindos de todos os bairros e de cidades vizinhas, sacerdotes das dioceses de Parnaíba, Sobral e São Luiz. Era o dia 7 de julho de 1946(PONTE,,2008,p.18-19)

 

 

Neste ínterim, o combate a essas “Heresias Modernas” tornou-se mais forte. Aumentaram os investimentos em escolas católicas como o Ginásio São Luiz Gonzaga e o Seminário Sagrada Família (atual João Paulo II), o festejo da padroeira e suas novenas, começaram a agitar a cidade.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Figura 9: Seminário Sagrada Família

 

 

               

                                

Figura 10: Alunos da Escola São Luis Gonzaga

                    

                 

 

 

 

 

 

 

 

                        Figura 11: Alunos do colégio São Luiz Gonzaga desfilando

 

 

Porém o protestantismo neopentencostal não parou de crescer, principalmente no meio dos mais pobres, onde a sua mensagem de “Cura Divina” adquirira enorme força. A ânsia de curar  as doenças do corpo,da mente e da alma,aquelas mesmas que,firmemente ancoradas na imediatidade física do corpo ou na interioridade recôndita do espírito,mais de perto diziam respeito ao individuo.Era a essa dimensão privada de sua vida que a nova mensagem evangélica dirigia agora a atenção,longe da devoção altamente espiritualizada do catolicismo,então ainda muito dominante,e diante da qual esses males deveriam parecer mesquinhos ou só vergonhosamente confessáveis.O movimento neo-pentecostal tinha ainda uma vantagem a mais: a grande mobilidade na cidade e a ausência de hierarquia,que tornava todos responsáveis de sua salvação.a maior parte dos primeiros adeptos do protestantismo na cidade vieram do campo,local de dificuldades e de baixa instrução e procuravam na nova religião a solução pratica de seus inúmeros problemas.

 

Muitos viram no crescimento dessas Igrejas entre os segmentos mais pobres da população-que não por acaso se dá em uma época de crescente conquista de legitimidade no campo religioso por parte da umbanda e do espiritismo kadercista-também um elemento de ordem funcional ou utilitária. Num período de transformação social,com a aceleração do processo de industrialização e a conseqüente migração para os grandes centros urbanos  de significativos contingentes populacionais vindos de um Brasil rural pobre em busca de melhores condições de vida na cidade,a emergência dessas igrejas viria ao encontro dos valores tradicionais da cultura desses migrantes.em especial aqueles ligados a uma terapêutica mágica de benzimentos  simpatias ou a à medicina tradicional de ervas e plantas curativas sobejamente de onde vinham (CAMARGO,2000,p.398)

 

Com o advento do concilio Vaticano II, suas aplicações ficaram sob a responsabilidade do padre Francisco Bossuet de Sales (1961-1972) e padre Francisco Assis Soares (1972-1981). Este ultimo desabafou:

 

Sou padre desde 1967, a população de Parnaíba queria fazer a minha ordenação, no mesmo dia que o Monsenhor Antonio Sampaio iria fazer 50 anos de padre, então juntarão as duas festas. O aniversário dele iria  ser em janeiro,mas adiaram a data para março,quando eu me ordenava padre e foi uma missa bonita e duas festas.Fui pároco da catedral de 1972 a 1981,mas antes exercia função na secretária da paróquia.a atividade religiosa,vai de acordo com o líder,se ele fizer uma boa liderança,todos seguem no rumo,mas pra ser sincero  o povo tá é morrendo de saudades das minhas novenas em homenagem  a Nossa Senhora Mãe da Divina Graça,a padroeira de Parnaíba,a rainha desta cidade de Parnaíba.a nossa festa era uma das maiores,mesmo tendo a de São Francisco ,lá em  São Sebastião.Quando eles começavam o deles,de São Francisco dia 4 de outubro,eu seguia rente e quando eles estavam terminando o deles eu já tinha começado o meu,de Nossa Senhora,que só ia acabar dia 11 de outubro,hoje não é dia 8 de setembro,data essa que muita gente num gostou.A festa da padroeira era muito agitada,bem animada,tudo na cidade girava em torno da catedral.O Concilio Vaticano II,esse concilio…,bom no inglês de diz  Glass,no russo ,no alemão, e para mim é a palavra deste concilio é Transparência ,o Concilio Vaticano II abriu as portas da Igreja,abriu-se todas as capelas,os museus,as bibliotecas,para todo mundo poder ver que a Igreja não escondia nada .O Concilio Vaticano II,abriu mesmo as portas da Igreja,mostrando para o mundo que ela num estava baseada,nem em  leis,em historia inventada,mas na doutrina de Cristo e dos apóstolos.Nós estamos no tempo da missão.É obrigação de todo batizado ser missionário,já num se vive mais o tempo da promessa,que era com esse povo,Adão,Abraão e outros tantos,estamos no tempo da missão,onde todos são chamados a serem Igreja. O Vaticano II abriu suas portas para esse povo exercer a sua missão, que é implantar o reino de Deus aqui na terra. Cada batizado tem o dever e a obrigação de exercer essa missão,esse negócio de Santas missões populares na paróquia,na comunidade..isso num precisa de jeito nenhum.No meu tempo está mudanças na liturgia,num surtiram tanto alarde não,por que foi uma abertura de portas.Falar em latim,me diga?Se ninguém entende nada? Por que falar uma língua morta? Foi ótimo, por que saímos do latim e falamos a língua popular. Em todo mundo,em cada  missa se falava latim,o povo respondia mais ninguém entendia opõe se estava dizendo.Então abriu as portas,e num se falava mais em latim,então o celebrante,o sacrificador,àquele que está fazendo o sacrifício do Cordeiro,do Filho de Deus,celebrava o mistério de Cristo  e a assembleia,ou Eklesia ajudava,depois do concilio,o celebrante e os fieis,respondia e participavam da missa,em suas línguas,alemão,inglês,português,espanhol é claro os gregos continuaram a falar em grego,por que eles não estavam ligados a Roma.Isso houve quem não gostasse,quem decidiu continuar rezando a missa em latim como foi o caso do Bispo Le Febre,que insistiu em continuar celebrando em latim,por que ele considerava o latim uma língua universal,que unia todos os povos.Quando eu estava hospedado no mosteiro beneditino,nós começamos a rezar os ofícios das laudes em latim,aí quando foi a hora de celebra a missa,celebrou em português,segundo o Santo Padre Bento XVI,nesta ocasião pode-se celebrar em latim.Eu sei por que eu ainda celebrei em latim,mas quando mudou eu ensinei o povo.Os protestantes,que existem hoje,se baseiam nesta história de cura,no meu tempo já existia mais num era tão forte como hoje,pra eles é fácil,qualquer casinha pode se tornar uma igreja.Sabe por que o povo vai? O povo quer milagres e quando chega lá na igrejazinha, lá está o pastor fazendo milagres e curas, entra um aleijado com cadeira de rodas e depois ele sai com as cadeiras nas costas. Mas o quê que é isso: Isso e engodo, por que só Deus faz o milagre. Você vai a Deus,por meio de São Francisco,de Nossa Senhora,mas o milagre é de Deus.O brasileiro,especialmente o nordestino,é um povo doente quando chegava nestes espaços,numa noite tinha mais de 300 curas,300 curas por noite é muita palhaçada.E o pastor vai lá e diz eu tenho o poder,poder uma droga tudo é cura telestésica,tira a dor mas num cura a doença.No meu tempo ouvi falar até de um Edi Macedo,que fazia milagres,mas aí ele foi preso,por exercer a medicina ilegalmente.As pessoas que vão para eles,só vão em busca de cura e de quebra  uma riqueza.Em relação aos pobres não,mas os comerciantes e alguns empresários sim,eles foram e se tornaram protestantes.Muitos deles eram assíduos na Igreja,mas devido alguns deles falirem e caírem de bolso,mergulharam no protestantismo que prometia riqueza e dizia que a pobreza era coisa do cão,hoje qualquer bichinho coloca a Bíblia debaixo do braço,vai numa casa e funda uma igrejinha e começa as curas,mas é tudo engodo,tira  a dor,nunca doença e sai por aí dizendo que Deus age nele e que ninguém  precisa ir a missa,e mostra lá na bíblia,isso,aquilo e diz umas palavras e tal,esquece ele de quem traduziu a Bíblia  foi a Igreja católica,na pessoa de São Jerônimo,que traduziu do  grego e do aramaico para o latim,a vulgata.6

 

 

Podemos verificar na fala de Padre Soares, o dinamismo e a aversão ao protestantismo crescente, principalmente o neopentencostal, que iniciou uma verdadeira cruzada contra o catolicismo e contra qualquer conceito de umbanda ou Kadercismo. Neste ínterim ganha força cada dia mais na cidade, adeptos do protestantismo neopentencostal, que em sua doutrina teológica desenvolve o que chamamos de “Teologia da prosperidade”

 

O principio doutrinário em que se fundamenta a prática religiosa das igrejas neopentecostais, independentemente de ser diferenciada sua liturgia, é a “Teologia da prosperidade”, segundo a qual todos os fiéis, ao se converterem, ”nascidos de novo” em Cristo, são reconhecidos como “filhos de Deus”. Ora,o Criador,Senhor do universo,tem direito sobre todas as coisas por ele criadas e,ao reconhecer os homens como seus filhos,no momento da conversão,coloca toda as  coisas ao dispor deles,porque os tomou sob sua proteção para  serem abençoados e terem êxito em seus empreendimentos.(MONTES,2010.p. 119-120).

 

 

As paróquias investiram então os seus esforços para impedir esse êxodo religioso, que a cada dia mais ia tomando forma. As grandes Missões Populares nas décadas de 1970 e Presente novamente no seio pobre, a presença e a autonomia da Igreja Católica, colocando a responsabilidade novamente nas mãos dos leigos, só que desta vez, assumindo a função de libertar o povo, criar uma nova sociedade.

Como Leonardo Boff nos revela:

 

A fé pode contribuir para indicar caminhos novos a uma sociedade nova sociedade alternativa ao capitalismo e alternativa do socialismo-sociedade mais plena e mais humana, sociedade livre e libertada, numa palavra, sociedade de libertos.

(BOFF, 1986, pg. 100)

 

 

Eliminar o ateísmo e agnosticismo presente na sociedade era um dos pontos da educação nas comunidades pobres, pois o Estado laico incentivava a criação de cidadãos funcionais, onde o individuo era educado para servir a pátria e morrer por ela.

Ao contrário do governo que incentivava a inexistência da critica, a teologia da libertação pregava que o cidadão deve ser altamente critico segundo o papa Paulo VI, em sua encíclica Evangelli Nuntiandi:

“A inteligência, sobretudo a as crianças e jovens precisa aprender mediante instrução religiosa sistemática os ensinamentos fundamentais o conteúdo vivo da verdade que Deus quis nos comunicar e que a igreja procurou expressar de maneira cada vez mais rica no curso de sua História (PAPA PAULO VI. 1975)


6 SOARES, Francisco Assis, entrevista concedida em 28 de dezembro de 2011.

 

 

O intuito de implantar a teologia da libertação nas comunidades rurais e periféricas foi bem aceito na diocese, e viu-se com bons olhos o seu desenvolvimento. A arte sacra foi usada também na educação dos indivíduos. As simbologias, típicas do catolicismo, eram aproveitadas para inserir nas pessoas, as teorias sociais; hagiografia eram os livros meus cantados, da preferência os do mártir e dos soldados convertidos.

Segundo Meli Cook:

 

 

O símbolo tem o poder de evocar o mistério. O mistério ultimamente se situa na intenção e no poder de Deus, mas mediantemente na História e experiências Humanas.

O símbolo tem poder de evocar o mistério, porque se dirige à pessoa inteira – a imaginação, à vontade e as emoções assim como também ao intelecto- e porque está profundamente enraizado em experiência humana e história humana. Não se pode simplesmente inventar símbolos verdadeiros. “Eles emergem das profundezas na consciência humana tanto individual como coletiva e duram como símbolos vivos somente enquanto continuam a essas profundezas”

(COOK, 1986, pg. 47)

 

 

 

A educação não era limitada só as comunidades, as famílias também eram locais de partilha e ensino, “o campo representa entre as atividades empreendidas por setores de igreja, uma das mais significativas quanto ao numero de pessoas envolvidas (…). Na prática educacional extra principalmente três elementos a serem considerados: o agente educacional, o aluno e os meios (ambientes) educacionais (…)” (LIBANO, 1979, pg. 184)

A juventude, alimentada pela “utopia absoluta do reino”, assumia lutas pelas terras, onde invadiam terras das grandes latifúndios, um bom exemplo dessas comunidades, são as comunidades, lagoa do prado, rebentão, cajueiro, monte alegre. Onde as lideranças, guiadas pelo sonho da terra e da igualdade, onde Deus governara e não haverá pobreza e nem fome (REGAN, 1926, pg195)

As comunidades de Base em Parnaíba não atuaram tanto no campo político, pois seu enfoque era a área mais pobre, visando fim do conformismo e da luta por uma vida melhor. Assim a paróquia adquire uma nova cara:

 

A paróquia é percebida agora como um centro de prestação de serviços num contexto de religiões mercantilistas. Numa paróquia de centro encontramos tanto uma banca de venda de objetos religiosos (imagens, terços, livretos, etc.), quanto um espaço de atendimento psicológico (serviço de caráter secular), além do costumeiro movimento burocrático (marcação de missas, sacramentos, etc.). Notamos que a paróquia como um local e sinal visível está cada vez  mais diluída no cenário  plurissignificativo do espaço urbano.Mesmo não esgotando a demanda religiosa da cidade, a paróquia não pode ser suprimida,uma vez que ainda se constitui num simbolismo que organiza o sentido do mundo.Embora se necessário procurar outros  simbolismos que também  dêem sentido à vida:compaixão,ajuda solidária,ação de  misericórdia e o próprio assistencialismo(que até o próprio Engels valoriza:é preciso manter a vida mínima do protelário)(LIBÂNIO1997.p.64)

 

 

Diante disto o embate entre protestantes e católicos continuou firme. Seja com festivais  e cultos cada dia mais elaborado no caso dos protestantes,seja nas novenas  espetaculares,nos retiros de aprofundamento,nas grandes procissões ou nos encontros pastorais com efeito de efetivar e criar  força no meio comunitário.

Enquanto no meio católico, o objetivo da ação evangelizadora era de constituir um povo que lutasse para inaugurar o reino de Deus aqui na terra, na luta pela terra, no dia a dia, aceitando até mesmo, o sincretismo religioso, para manter presentes a todos na vida paroquial, os protestantes usaram uma tática que fora usada pela Igreja católica na década de 1930: a Romanização, no caso do protestantismo, a demonização das praticas de umbanda, camdomblé, bruxaria, pajelanças, rezas, benzimentos, orixás, macumbarias entre outras tantas. É comum nos espaços de culto protestantes neopentecostais,o exorcismo.

 

Se a forma do culto é a do exorcismo, velho conhecido da Igreja Católica, o que se exorciza é, sobretudo o conjunto das entidades de panteão afro-ameríndio incorporado às religiões de negros perseguidos sós recentemente apropriadas pelos estrados médios das populações médias urbanas. Assim,o que a nova liturgia evangélica realiza é um ecumenismo popular negativo,ou às avessas,incorporando todas as figuras  do sagrado das religiosidades populares sob a mesma designação comum das múltiplas identidades do Tinhoso.O que os ritos neopentecostais supõem,e põem em pratica é um profundo conhecimento dessas outras cosmologias  que sustentam tais religiosidades,assim como as técnicas de produção e manipulação do transe das religiões  de possessão.Sob a mesma forma ritual geralmente já conhecida pelo fiel  nos terreiros de candomblé e de umbanda,as entidades do panteão afro-brasileiro são chamadas a incorporar-se no cavalo para  depois de “desmascaradas” como figuras demoníacas enviadas por alguém conhecido para fazer um trabalho contra a pessoa,ser devidamente  “exorcizadas” e submetidas à injunção de não mais voltar  a atormentar aquele espírito,pelo poder de Deus .(MONTES,2010,p.122-123)

 

 

Com esses dois aspectos (o exorcismo e a teologia da libertação), o protestantismo em Parnaíba foi tomando corpo e cresceu na nossa cidade. A situação só ria mudar, com a chegada da Renovação Carismática Católica, na década de 1980.Este novo movimento, que teve origem no mundo protestante estadunidense, é constituído de quase todos os aspectos do neopentecostalismo protestante, excetuando nos fatores: Vida sacramental, adoração eucarística, obediência a Igreja Católica; de resto todos os elementos são iguais: curas, libertações, transformações de vida, conversões, pregações ardorosas e com gritos, cenários espetaculares. Como sempre a Igreja Católica viu com mal olhos esses homens que fazendo uso dos “carismas do o espírito”, fazendo barulhos estranhos e cantando como protestantes, que diziam ser a renovação prometida pela Igreja e profetizada pelo Beato João  XXIII.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

CONSIDERAÇÕES FINAIS

 

 

O Concílio Vaticano II é mais do que os documentos, sínteses, abstrações e novidades por ele produzidas. É muito mais do que um evento histórico encerrado.Trata-se de um espírito,de um novo símbolo da Igreja católica.Criou e cria  um imaginário eclesial que adquire força própria e autônoma até  mesmo em confronto com alguns textos .O imaginário seleciona  e configura uma representação da realidade em questão.Viveram-se os anos conciliares e os primeiros pós-conciliares em clima de novidade,de liberdade,de experiências diferentes,de busca de dialogo com as Igrejas,as religiões e a modernidade.Ambiente de muita esperança e euforia,mas também de ousadia desmedida.O pé da história pisava no acelerador e a instituição eclesial entrava em movimento rápido de mudança.Logo em seguida,surgiram temores,uns fundados,outros imaginados,que levaram a mudar a posição do pé do acelerador para o do freio O Concílio Vaticano II,explica os avanços e os retrocessos do momento atual.Os avanços buscaram colher-lhe a força inspiradora.Os retrocessos revelam os temores diante do dinamismo propulsor que está a dissolver muitas estruturas emperradas e incapazes de responder à sua vitalidade.Freiam as  iniciativas.Cresceram temores de que a Igreja Católica perdesse a identidade,se esfacelasse,rebaixasse as exigências cristãs e assumisse os desejos do mundo.Sem chegar ao paroxismo do bispo francês Le-febvre,para quem o concilio foi uma traição.

Para muitos foi esse o sentimento que predominou: A traição cruel, daquela fé simples e elaborada, distante e sacrossanta, tornando-se comum, igual a qualquer coisa. Isso não era o que muitos desejavam.Isso não era mais o cristianismo.

Visto com perspectiva histórica,o esforço por conter e reverter o Concílio fracassou,produzindo uma situação de mal-estar generalizado, uma atrofia centralista e uma perseguição encolhedora e paralisante em tempos de mudança vertiginosa da sociedade e do mundo que exigiram por parte da Igreja redobrada esforço de dialogo e atualização. O salto da consciência que o Concílio supôs presente na maioria dos cristãos é irreversível.A tentativa de reinterpretá-lo e revertê-lo parece historicamente um caso clamoroso de magistério rechaçado,imposto só por via autoritária contra o sentir  do povo de Deus.

O déficit resultante para a Igreja oficial é expressivo: notável perda de autoridade e de relevância diante da sociedade civil e da inteligência, crise sem precedentes quanto aos abandonos, auto exílio e indiferença em seus ambientes mais expressivos, a Europa e a America latina.

No interior das religiões cristãs a diferença entre o catolicismo e o protestantismo talvez esteja no grau de abertura à alteridade (MONTES, 2008, p, 124) Não é difícil entender por que a Igreja neopentecostais tem mudado a face do protestantismo. Com o recharcimento do catolicismo o protestantismo se difundiu muito rápido,e considerando que o advento do relativismo e da ausência de uma imersão dos valores na religiosidade,era de se esperar que as religiões sucumbissem a forte pressão da pós-modernidade.Porém com o protestantismo,isso não ocorreu.Ele se reinventou e foi assumindo diversas formas,ao gosto  do fiel.Enquanto o catolicismo,embora embarcando numa jornada rumo a abertura,ficou ainda estagnado no seu tradicionalismo e não assumiu a modernidade .Ficou a cargo de todos a decisão.

                                                                                                                                                

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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