Habeas misericórdia, por Rosal.

Habeas misericórdia.

 

Fim de semestre na universidade é um circo de assombrações. Gente que não aparece há semanas de repente brota na primeira cadeira da sala com aquele semblante inquieto de bajulação. Já imaginou um fantasma bajulador? Gente que estudou durante o percurso inteiro de repente aflito com os três seminários e as cinco provas marcadas para uma semana – a última. Gente indiferente, gente cansada, gente nas últimas desde sempre, gente obrigada, mas muita gente na sala que de repente é cheia de gente. De repente gente, biblioteca (ou quase isso), gente, banheiro, gente, lanchonete, gente, estacionamento, gente e o ar de apreensão.
Meados de aula de Processo Penal e o novo professor admitido – sim, admitido em fim de período, afinal, é UESPI, por que não? – bombardeia os ouvidos do alunado com um enxame de artigos furiosos: ferroada de inquérito, ferroada de ação penal, ferroada de noite em claro… A alergia aos ferrões é solidária, não ignora seus desafetos de fé e direito e não há remédio constitucional ou habeas misericórdia que dê jeito.
Em meio ao enxame zunindo canetas em desespero eis que surge a cidade dos cornos. O dito professor, em exemplo de crime à honra de pessoa, põe em caso a famigerada Associação dos Cornos do Ceará. Aparentemente esta teria por sede ou importante filial uma cidadezinha do interior do estado: Quiterianópolis (ou alguma outra com fim de nome em derivação semelhante).
– Não há que se falar em crime de difamação ou de injúria se um natural da cidade assim alcunhado for, pois é de costume nesta região ser corno mesmo.
Brincou o professor e a sala desatinou em algazarra e piada. Os preocupados desfranziram suas rugas esquecendo-se de suas preocupações por um momento enquanto os bajuladores riram mais alto. Confesso que achei de uma injustiça grosseira para com as pobres mulheres residentes e confesso que, ainda assim, em conjunto estava um riso sutil em meus lábios. Creio que o humor maldito seja de praxe à didádita penalista. Já imaginou um coro fantasmagórico de riso entre corneadas e enxames de artigos?
Se Douglas Adams estivesse vivo, e por uma infâmia da vida estudasse Direito na UESPI, teria escrito um guia diverso, certamente. Mas como não encontro um Douglas Adams nos corredores de minha universidade, escrevo eu mesmo, com suas letras garrafais, e nesta crônica, pois se nas portas de entrada o diretor, acredito, não restaria inerte, a máxima de solução: DON’T PANIC – É SÓ FIM DE SEMESTRE.

 

Rosal.

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