O beijo do Inimigo, por Alexandre César

Eu beijei meu inimigo

Tinha gosto de cerveja,

Embora eu não beba

Bem sei que levedo não é doce.

Foi natural e espontâneo,

Como se odeia um estranho

À primeira vista,

Embora eu resista

O pior havia acontecido.

Eu beijei meu inimigo

Como quem beija uma princesa,

Num feriado de domingo,

Com a generosidade

Que o desprendimento almeja.

Eu o fiz tenho certeza

Sentado em uma cadeira,

Lá estava como artista.

Como era lindo

Vaidoso e atrevido,

Querubim desconcertante

Como quem se alivia

Com o coito num ruminante,

Seu olhar estava vivo.

Eu beijei meu inimigo

Como minha mãe me beijara,

E lhe entreguei das faces

Justamente o meio da cara.

Eu beijei meu inimigo

Como beijam as crianças,

Que não sabem beijar.

Eu beijei meu inimigo

Feito noiva num altar,

Era úmido e rígido

Como a mesa de um bar.

Eu beijei meu inimigo

E nem sabia,

Percebi quando acordei.

 

Alexandre César

 

Imagem: domínio público virtual

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