O coletor de almas (Leonardo Silva)

Os grupos que dominavam a cena econômica e política em Parnaíba foram
sistematicamente, investindo em instituições e empreendimentos, que viabilizassem a
atividade extrativo/exportadora. No século XX, à medida que as atividades econômicas
permitiam, e se constituía uma elite mais ilustrada, ciosa de investimentos, foram
viabilizadas instituições e obras que traduziam o sentido de pertencimento da cidade ao
mundo moderno. Em 1917 já contava com uma Associação Comercial e um Banco do
Brasil; 1923, uma extensão de 147 km de trilhos, ligando Parnaíba a Piracuruca (PI);
1930 uma linha regular da Nirbe Line, que utilizava hidroaviões, dentre outros.
No final do século XIX e início do século XX, uma das figuras mais comuns na
cidade de Parnaíba era a figura do mascate, que vinha comprar e abastecer-se de
mercadorias para revender na cidade e nos rincões do sertão piauiense. Eles eram bem
conhecidos da população e eram grandes negociadores, alguns cm certa habilidade, se
tornavam grandes agiotas, emprestando dinheiro a juros altos, praticando a medieval
usura. Eram hábeis cobradores e não aceitavam nãos como resposta. Suas insistências
geralmente terminavam em pilhagem, difamação e às vezes a morte. Um destes
vendedores chamava-se José Moraht, ou como alguns caboclos diziam “o turco”. Ele
era conhecido pela sua lábia para vender e sua fúria para cobrar as dívidas e suas
histórias de bruxos e maldições que lançava em seus devedores.
Depois de alguns anos esta figura sumira, junto com a opulência e a riqueza da
cidade. Mas pode-se morrer o homem, mas jamais o mito; histórias malucas tentam dar
uma explicação o sobrenatural ao sumiço do turco, mas a que me foi contando, para
mim parece a mais interessante:
Num belo dia, em suas andanças de cobrança, Turco, foi a um dos seus maiores
velhacos. Cansado da viagem, se encostou num pé de Jucá e ficou ali, aliviando as
virilhas e o resto da cavalgada na sua mula. Num súbito, uma fumaça de cor amarela e
com odor enxofrado surge diante do velho semita piauiense. Ele acorda, como todo bom
sertanejo, já bradando sua peixeira rabo-de- galo com cabo de madrepérola.

_Quem foi? Não entrego nada, saia daqui senão lhe trato suas tripas! Brada o velho
-o que tens pouco me interessa o filho de Israel, disse à voz que saíra do meio da
fumaça fedorenta – Venho lhe fazer uma conseguinte oferta.
– Não falo com ninguém oculto! Ou aparece ou nada! Responde rispidamente o senil
árabe.
Neste instante, a fumaça se dissipa e surge um homem com terno branco e sapatos de
pelica, em lustrados e uma cartola na mão. A situação ficou estranha, mas era preciso
indicar o dialogo.
-Que foste tu?Perguntou o turco
-Sou Icabod, um viajante e homem de negócios ,assim como tu,respondeu o homem
misterioso, e venho te propor um trato de negócios.
– Que tipo de trato? Que pensas em me arranjar?
Então, o homem em trajes virtuosos, abre seu paletó e retira um rolo e uma caneta
tinteiro. Prosseguiu o estrangeiro
-Se firmares comigo um trato, a partir de hoje todos os teus devedores e pagarão em dia
e tuas vendas serão pomposas, porém possui um preço…
-Que preço? Interrogou o turco já ansioso
-Sua alma e a sua fidelidade. Quando necessitar de tivéreis e te convocará.
-Sua história é uma piada de mal gostou não assinarei pombas nenhuma.
E dando uma tapa vigorosa, João Moraht jogou para longe o pergaminho.
Humildemente o homem de branco, se abaixou e pegou novamente o rolo e estendendo
novamente disse:
-Diante de vossa recusa,farei uma proposta diferente.No lugar de sua alma,pedirei
apenas a sua fidelidade e disponibilidade e quando chegar a sua hora,darei a ti a
vida,para me servir.
João pensou e mudou a postura.A proposta seria tentadora,já que sua alma não seria
arrastada ao inferno.Lembrou dos devedores e da dificuldade em enriquecer e segurou o

papel,temeroso.Ao tentar assinar,sentiu uma fisgada e percebeu que ferira o dedo e o
sangue escorreu em filete ,pela caneta.
Assinara com sangue seu trato.
Diante do trato, o galante misterioso partiu.
O turco carcamano saiu a cobrar e a vender. Suas vendas e cobranças iam de vento em
polpa. Vendia até os produtos mais inúteis a preços exorbitantes e todas as vezes que ia
cobrar um devedor, o mesmo nem hesitava em pagar, até mesmo os mais velhacos e
tranbiqueiros. Acontece que o cobrador ganancioso, foi ficando com o tempo,
desleixado em relação a sua segurança, achando também ser invulnerável também da
maldade humana( e não só dos calotes frequentes).um dia ,ao seguir rumo a localidade
Cocal dos Alves, em uma curva ,logo após um pequeno cajueiro, dois
assaltantes,armados com dois Parabellum 9 mm encostaram no velho
comerciante.Levaram todas as suas mercadorias e o dinheiro arrecado.Vendo todo os
seus meses de trabalho duro sendo surrupiados,o mascate agiu rapidamente e puxo sua
faca,como um soldado mouro em frente de batalha;desferiu um golpe certeiro no
abdomém de um dos ladrões,contudo o outro,desvencilhando-se,disparou três vezes
contra ele…O velho comerciante viu a sua vida findar…Caiu próximo ao bandido que
ferira e ambos ao chão,foram morrendo em suas respectivas poças de sangue…
Abandonado e semi morto,teve ainda oportunidade de ser visitado pelo homem
galante,o qual fizera sua fortuna decolar.
Apenas o tocou, e o mascate sentiu seu sangue voltar e fluir novamente,não mais pelos
longos buracos de bala.
-Vim cobrar a minha paga,mascate turco.
-Mas já?Não viste que agora posso viver ?
-Não, até hoje foste servo do comércio de metais,mas agora serás servo do comércio de
almas.Irás cobrar as almas condenadas…
A maldição agora obrigara a sua alma, a buscar as almas malditas,decaídas e destinadas
ao fogo abrasador do inferno.A quem já ouvi as pesadas botas tintilando do coletor de
almas,outros juram de pés juntos que viram o turco,com vestes vermelhas e escuras,vir

coletar as almas condenadas,bêbados temerosos em seus delírius tremes já foram
ameaçados pelo home de capa vermelha,bigodes brancos e olhares negros,em seu
cavalo de tropa,pálido como a morte, que com lampião sombrio vagava pelas ruelas da
cidade,buscando almas pendentes na região da Areinha e do Mercado da
Quarenta,caçando com ardor,devedores de virtudes e pecadores envaidecidos de suas
mazelas.
E até hoje,ele caminha pela cidade,buscando impenitentes e almas degradas,mesmo
tendo sido esquecido e até mesmo condenado ao ostracismo da crença, o Coletor de
almas está ainda a caminhar…
Se ouvir o tintilar de suas botas e o esvoaçar de sua capa vermelha,se prepare,ele veio
coletar a sua alma…

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