O poder destrutivo da História

     “Não atoa, tudo na história se reduziu a tomar”, Marx/Engels já diziam isto na célebre Ideologia Alemã (1845-6), esta constante da arquitetura da destruição que são as formações históricas, ou os chamados “processos” históricos tem sido vista e representada de forma plácida e até mesmo doce. Adocicada como os textos do intelectual tradicional (no sentido de Gramsciano) Gilberto Freyre, a história, sobretudo a do Brasil tem ganhado contornos de novela de final feliz, na pena dos seus mais “ilustres” historiadores acadêmicos e catedráticos.

     O real, a crueza dos interesses dos pequenos grupos que escravizaram milhões e mataram outros tantos pelo simples apego mesquinho ao lucro e a apropriação de terras e recursos tem sido desacreditada, pondo-se ênfase nos “micro conflitos” e nas relações que “deslizam” das meta narrativas ou esquemas apriorísticos que “reduzem a visão de mundo” e enrijeceriam a escrita da história com base na vontade de poder (JR, Albuquerque, D.M).

     O conhecimento histórico deve sim servir de base para a tolerância e o respeito à diversidade, mas o que a História não tem cessado de mostrar é o cortejo dos vencedores (Benjamin). Os grandes massacres são vistos como “choques de alteridade”, as grandes rupturas institucionais brutais (1964-85) como “efervescência cultural”, a própria história reduzida ao discurso, se tornou uma anedota. Arte. Não que os saberes da ciência burguesa são “libertários” ou que os cânones acadêmicos são “superiores”. Mas a redução à dimensão estética da história a tem despolitizado e a dotado de uma caracterização risível de uma novela sem conflitos, além de dramas cotidianos e naturalização do status quo.

    A história vista de baixo também tem seus deméritos, pois ao supervalorizar o antagonismo não aceita as complementaridades, os acordos e os sensos e hegemonias além do consenso dos dominados. Mas é talvez a única que busca demonstrar a constante histórica que nos atravessa desde a Revolução Agrícola: a exploração do homem pelo homem, o roubo, a alienação e a dominação da minoria sobre a maioria.

     Os chamados “desconstruidores”, os filósofos altamente intelectualizados, com textos que são verdadeiros desafios (Foucault, Deleuze, Derrida e companhia) representam um deslocamento, outra visão, um olhar diferente. Sua hipervalorizarão como uma contra história frente um marxismo historiográfico (malgrado os simplismos e narcisismos) impõe outra assimetria ainda mais “descompromissada”, afinal afirmar ainda é demasiado, pois o “tu deves?” Nietzscheano convertido em máxima do arteiro que realiza a operação historiográfica é o grande horizonte deste novo rebanho sem pastor.

     A despolitização advinda disto faz com que o poder destrutivo e explosivo que uma observação histórica mais neutra possível demonstraria, daria a maioria da sociedade à consciência de sua subalternização, que sob o capitalismo sofre as piores agressões, é impelida a trabalhos forçados e alienantes e que sustenta uma classe parasitária que se serve do poder. Por uma história que ensine a “derrubar tudo o que existe” (Marx/Engels, 1845-6) e não que desconstrua para ficar só no monturo inerte.

Messias Cardozo

Fonte da imagem: web

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