PEGADAS DO TEMPO, POEIRA E SONHOS DA ALMA I (Leonardo Rodrigues da Silva)

O Relógio em cima da mesa aponta 05h45min da manhã; estou acordado há
horas, pensando em soluções para mim e para os meus problemas. A chuva tímida cai lá
fora; da janela do meu quarto escuto as gotas caírem nas folhas de bananeira… Penso
muito nas pessoas que passaram pela minha vida: Vô Joaquim, Tia Sonally, Jardênia,
Ursulina, Tia Sheila, meu grande amigo Victor, meu irmão adotivo Leandro; minha
doce Joelma, Kátia, a turma do 1o ano e os amigos do SESI… Quanto da vida, essas
pessoas me ensinaram? Com alguns aprendi as duras lições de História, Matemática,
Geografia e Português, com outras descobri as delicias, os prazeres que a vida
proporciona: tocar no corpo de uma mulher, jogar conversa (ora, aproveitar, sem culpa
as aventuras e desventuras com os amigos, ensaiar os primeiros passos do amor, e com
ele descobri os mistérios que algumas peças de roupas teimam em esconder; com uma
pessoa em especial, aprendi coisas que, só agora entendi; Essa pessoa era o meu avô,
progenitor do meu pai; Os anos ousaram em levá-lo do selo da nossa família, mas seus
ensinamentos ficaram escondidos em meu coração; o respeito e a si mesmo, a
fidelidade, a honestidade e a paciência.
Lembra-me das brincadeiras que ele me ensinou; muitas delas se perderam no
tempo. Mas ele permanece firme na minha alma e no meu coração.
O meu celular alarma bem alto, as 06h00min da manhã; chegou à hora de levantar.
Ergue-me vagarosamente com o coração saudosista. Caminho assustado ate o banheiro
olho-me no espelho; meu rosto denuncia uma tristeza acanhada… Cansado de tudo,
cansado dos livros que estão na estante, das musicas vazias e sem conteúdos, dos
insensatos que moram ao meu lado, dos controladores e dos dominadores que vivem e
sobrevivem ao meu redor, na minha casa, na universidade, na missa e nas ruas. Lavo
meu rosto com a gélida água das torneiras; me desperto e vou, maquinalmente, a
cozinha esperando criar coragem para colocar a chaleira com água, em cima do fogão.
Penso muito em você; talvez seja um idiota por fazer isso, mas estou tão carente, que
mais nada me resta.
O sol bate na janela. Vou olhar a rua… Vejo-me há alguns anos atrás; um garoto
sonhador, com mil e um projetos pela frente; o apaixonado pelas poesias românticas e
extravasadas; fecho os olhos, começo a chorar a chuva cai mais forte e nos rios da
minha memória me afogo aterradoramente.
Ouço o chiar da chaleira. Corro apressadamente e desligo o fogão. O apagar da
chama me faz recordar a figura de minha mãe quanta saudades.
Ouço os passos da minha vizinha do lado escuto seu caminhar; o ringir da porta
do banheiro; o som estrondoso das descargas… Ela foi uma antiga paixão, daquelas
proibidas que todo tivesse, conscientemente, vontade de ter; beijamos-nos a primeira
vez no muro da sua casa e desde este momento nos encontrávamos as escondidas…
(Nossos encontros eram cada vez mais picantes, até o dia em que entrei no sei quarto
com a intenção de ensiná-la um pouco de matemática e historia) e tivemos a nossa
primeira noite de amor: tudo era novo: as mãos sobre postas, as pernas entrelaçadas…
Porem o que fora lindo na adolescência, morreu tristemente com o fim dela.
Amávamos-nos todos os dias e chegamos a pensar em casamento, mas ela não aceitou,

alegando que sexo não era amor, e que eu não a amava, mas a queria apenas como um
brinquedo sexual; não sei bem explicar, mas acho que foi isso; não gosto de lembrar,
isso me machucou muito tais lembranças. Hoje ela esta casada com um velho amigo,
ficante dos anos dos anos de colegial. Não tem filhos, pois se descobriu que ela tinha as
trompas fechadas. Ri, muito deles, pois a sua mãe me julgava impróprio para sua filha.
HAHAHA! Quanta sutileza do destino…
Enquanto ouça reclamar da impotência freqüente do marido, faço um bom café, seu
cheiro me faz viajar ate a minha puberdade e adolescência no interior. Gostava de um
cafezinho de manha bem cedo e no fim da tarde; e da bela Jardenia com seu vestido de
chita e seda; seu sorriso meio amarelado mais feliz me fazia apaixonar e achar que ela
sentia o mesmo. Nunca esqueci quando nos beijamos a primeira vez; à noite a lua
crescente nos abraçava enquanto nossos lábios e língua trocavam afagos e saliva. Foi
muito triste quando parti de lá, pois ela foi o meu primeiro amor de adolescente. Escrevi
um poema para ela, que não me lembro mais, falava de seus cabelos, da sua pele
morena e do seu beijo de fada. (romantismo demais, eu sei, mas o leitor vai me perdoar,
eu era ainda muito jovem e sonhador).
Tomo calmamente o meu café. Coloca a pequena caneca na pia e me dirijo à
sala. Abro a janela e deixo a luz fraca do dia nublado invadir a minha casa. A chuva
passava. Sento-me no velho sofá e pego meu desafinado violão. Toco as minhas antigas
canções. Cansado de mim, tento lembrar o meu grande amigo que se fora. No seu leito
de morte ele deu-me este velho violão e umas cartas lacradas (jamais lidas) como
herança… As cartas, nunca, as abri, o violão, tratei de aprender, para fazê-lo ouvir e
jamais se esquecer do meu grande amigo.
O telefone toca, atendo apreensivo era; Ursulina, minha amiga da universidade.
Conhecemos-nos em uma calourada promovida pelos veteranos; ela era linda, muito
linda usava óculos fundo-de-garrafa e tinha um ar de moça atrapalhada e inteligente;
estava certo. Conversávamos muito nos intervalos das aulas; transamos algumas vezes
na sua casa de praia, na ilha grande de Santa Isabel. Era ótima na cama, mas era muito
complexa nos relacionamentos a dois. Ela desistiu de me fazer entende-la e terminou
comigo. Hoje somos grandes amigos. Combinamos um jantar às 7 horas da noite, no
velho ponto de encontro dos universitários. Aceito e desligo.
Já são 8 horas da manha, me arrumo e vou trabalhar. Pego o meu velho
carango e sigo pela Avenida Álvaro Mendes; enquanto a rua passa por mim, recordo a
minha trajetória escolar; o velho “Verdinho” a saudosa Unidade Escolar Padre
Raimundo José Pereira, onde fiz o ginásio e no meu apaixonante colégio Estadual Lima
Rebelo, onde conheci uma das minhas eternas amantes: Ana Paula. Ela soube me
ensinar coisas, que outras mulheres não foram capazes de fazer. Deu-me a capacidade
critica ou conhecer as nossas malicias de ser fera no mundo selvagem dos homens.
Além de me fazer amar verdadeiramente uma mulher. Ela, ainda hoje me faz suspirar
quando a vejo, Ah quanta saudade…

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