Psiu, por Rosal.

Psiu.

 

Sofro de insônia. Tenho meus trejeitos por sofrê-la. Não raro abraço a madrugada, acolho-a em meu peito até findar-se no primeiro canto de pássaro ou raio de sol, quando há sol. Os pássaros, por outro lado, estes sempre hão de haver; mesmo que não os ouça em meus tímpanos, ouço-os como uma impressão de memória em todo fim de madrugada. Mesmo quando visito o concreto de Fortaleza, entre seus prédios de vinte e tantos andares, os ouço e atento. Não como o ‘’exilado’’ Gonçalves Dias em seu poema-canção, não por desejo de escutá-los. Mais seria como Gonzaga, que convida o sabiá em um ‘’psiu’’ – em busca de sua amada. Busco, eu também, não o canto, mas seu intermédio.

As madrugadas, amo-as como ama-se o silêncio e um quadro de paz, mas, ainda assim, amo mais que a noite que dorme o intervalo que se transfere neste sono: o amanhecer. As auroras são frias inocentes, assemelham-se a belos cristais. Do que as sucederão, nada sabem – crianças e seus indicadores na iminência de tomadas de eletricidade. São eternas iminentes as auroras, por isso lhes aprecio, por nada serem além de esperança no branco céu que fazem morada.

A chuva batia rala na janela – quanta falta faz em um mês de outubro, ou que o valha, o ruído constante da chuva – quando notei o nublado da manhã. Enquanto a tudo observava, Adoniran Barbosa apoderou-se de minha voz com um de seus sambas antigos. Cantarolei baixinho ‘’Trem das Onze’’. Há tempos que não escutava o sambista, a quem conheço parco repertório: as cinco músicas de meu player, dentre elas, a que cantarolei fora de ritmo.

Escusada a ignorância sobre o artista, aprecio o que dele conheço como quem se aquece com o calor de um café, aprecio como quem admira o prato fino em que come ou a cor de uma camisa: parcialmente. A temperatura, o material de um utensílio, uma bela tonalidade de roupa não são a qualidade, a comida e a vestimenta, por óbvio.

Minha simpatia por Adoniran não decorre propriamente de seus sambas, mas da associação do nome que ostenta para com uma antiga amiga dos tempos em que morei no Ceará. Comovo-me ao som do samba e da voz rouca, pois submersa na melodia jaz uma cara amizade que se distanciou no galopar do cavalo que chamamos vida.

Minha comoção é diversa de outrora: a canção permanece bela mas é a saudade aquela que chora – um sussurro da nostalgia. Mas lágrimas não correm por entre as linhas de meu rosto. Há tempos em que resisto sem querer. Uma estátua de mármore. Todavia, abro a janela, deito os braços na bancada, deixo a chuva banhar-me a face. Se não choro, sinto a aurora chorar por mim e agradeço no silêncio; assisto as gotas encherem poças que formam-se no cimento, as infinitas gotas de céu nublado. E cai o céu em minha face.

Percebo cantarem os pássaros cortando o samba que toca ao fundo do quarto. Se eu fosse Gonzaga, talvez balbuciasse um ‘’psiu’’ por alguma atenção daqueles que cantam e podem voar, mas sou Rosal e como tal, resta-me o olhar serenizado e a melancolia de um mundo particular.

Peço perdão, hoje corrompi a aurora. Choveu o dia inteiro.

 

Obs: Fiz o poema que se segue sobre a canção ‘’Sabiá’’ do Rei do Baião. É um pouco antigo, vida de um punhado de meses e rejeições, mas percebo que surge momento oportuno para publicá-lo, vista a crônica, então:

 

Quisera eu ouvir dos pássaros

Teu nome e o desta poesia

O endereço de minha alma

E das belezas fugidias

 

Quisera eu falar aos pássaros

Dos tantos saber as penas

Ter canto em seus cantares

Mas é outra minha sina

 

Quisera ser em outros ares

Dos céus um servo alado

Não ser senhor de alardes

 

Quisera ser Gonzaga e Sabiá

E sou surdo aos pássaros

Rosal e a Mosca todavia

 

Rosal.

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