Uma desumana sociedade civilizada, por Josieliton Sousa Bernardo

      Há aproximadamente 73 anos terminava não somente uma guerra irresponsável movida por interesses imperialistas que foi capaz de matar milhares de pessoas, mas também a experiência traumática das vítimas do holocausto nos lager (campos de concentração). Embora hoje os lager sejam espaços de história e memória, muitos preferem não lembrar e esquecer o passado. Porque restou o pesadelo!

        As primeiras notícias dos lager relatadas pelos sobreviventes soavam como lendas, mitos e estórias. Quando a guerra terminou, as pessoas não conseguiam acreditar na ideia das câmaras de gás, crematório e nas terríveis sansões dentro dos campos, conforme nos conta um sobrevivente, Danis Avey em O Homem que Venceu Auschwitz.

        A rendição da Alemanha em maio de 1945 para as forças aliadas, representou o fim dos lager nazistas e a liberdade para muitos que ali se encontravam. Os lager nazistas eram divididos em três: campos de concentração, campos de trabalho forçado e campos de extermínio.  É importante compreender que não só comunidades judaicas foram enviadas para os lager nazistas, mas também os prisioneiros de guerras, como é o caso de Danis Avey, Homossexuais, Eslavos, Ciganos, Deficientes físicos, e Testemunhas de Jeová. Todos passaram por uma experiência dolorosa e traumática numa “Sociedade Civilizada”.

       Enquanto os Judeus, Eslavos e Ciganos eram perseguidos pelo fator étnico-racial, considerados inferiores na ideologia ariana, os Homossexuais era perseguidos pelo fator moralista, os Deficientes físicos por serem anormais na ideologia nazista e as Testemunhas de Jeová por causa da sua fé. Todos prestaram resistência ao nazismo e seus estereótipos. Segundo Primo Levi as primeiras notícias sobre os campos de extermínio, como Auschwitz, começaram a espalhar em 1942. Nesse sentido o grupo religioso, Testemunhas de Jeová se destacou em denunciar os lager nazistas por meio das revistas The Golden Age (A Idade de Ouro) e Consolation (Consolação), conforme as pesquisas de mestrado e doutorado de Simões (2016) e Castro (2007).

            Um dos pontos discutidos na historiografia alemã nas últimas décadas é sobre o número (quantidade) das vítimas dos Lager. Enquanto a historiografia oficial defende seis milhões de vítimas, os revisionistas defendem que o holocausto é um exagero, como Richard Harwood. Na realidade esse tipo de discussão pouco interessa, porque o holocausto aconteceu, as fontes matérias e documentais testificam o ocorrido. Existem muitos relatos de sobreviventes e farta bibliografia produzida, por isso tentar negar o holocausto diante do leque de fontes é ingênuo.

          Alguns sobreviventes preferem esquecer a memória nos lager. Exemplo disso é a experiência de Miklos Nyiszli. Segundo o médico e sobrevivente do campo de Auschwitz: era necessário esquecer para não enlouquecer. Por que muitos sobreviventes preferem não recordar o passado? Segundo Rüsen (2009) o trauma dos sobreviventes foi adquirido devido as experiências profundamente dolorosas, negativas e desastrosas nos campos. Assim, quem foi ferido ou machucado prefere cancelar a recordação para não renovar a dor, conforme aponta Primo Levi (1990).

            Em julho de 2017 entrevistamos um judeu Suíço, natural de Genebra que teve parcela de sua comunidade religiosa e família perseguida no holocausto. Embora M. Rappaport tenha preferido manter em silêncio os detalhes da perseguição a sua família no holocausto, ele nos forneceu respostas a algumas perguntas relevantes. Para nos ajudar a compreender o holocausto citaremos partes dessa entrevista.

JSB: Em sua opinião o que foi o holocausto?

  1. Rappaport: Pra mim o holocausto foi a vontade de um massacre de fazer desaparecer um povo inteiro e toda sua cultura por meio incrivelmente moderno, a industrialização de um massacre de uma sociedade moderna e qualificada nesse tempo como meio civilizado.

JSB: Como a Suíça lida com a memória dos judeus que foram perseguidos durante o holocausto?

  1. Rappaport: Nós encontramos várias opiniões. Mas, conhecendo particularmente a Suíça eu penso que a Suíça teve uma política muito paradoxal durante esse período. A Suíça salvou bastantes judeus durante esse período, aceitando-os no país deles. Segundo, a Suíça colaborou com os nazistas. Foi ela quem inventou de colocar um timbro nos passaportes suíços para diferenciar os judeus dos outros, o que facilitava as fronteiras de aceita-los ou não. E também outra coisa, igualmente, alguns anos atrás escândalos apareceram no que diz respeito a dinheiro que os judeus queriam proteger nos bancos suíços. Todos os bens como foram roubados pelos nazistas, eles pensavam que a Suíça era um lugar protegido, mas infelizmente 99,9% os judeus foram mortos, assassinados. E a Suíça não foi procurar a devolver esse dinheiro aos judeus. Eles não se interessaram em procurar as pessoas que sobreviveram, como eles deveriam ter feito com qualquer outra pessoa. Eles preferiram se comportar de uma maneira como se esse dinheiro nunca tivesse sido colocado num banco suíço, como se esses judeus nem tivesse existido.

JSB: Lembrar-se do holocausto é traumático para os judeus? Explique.

  1. Rappaport: Então, a memória do acontecido é um tabu e num mesmo tempo uma obrigação. Posso dar um exemplo, Spielberg fez um filme que se chama A lista de Schindler. É um filme que fala sobre tudo que aconteceu na Segunda Guerra Mundial, especialmente falando sobre o tratamento com os judeus. Meu pai me proibia de ver esse filme na idade de 10 anos. Ele me deixou ver esse filme somente quando completei 15 anos. Isso representa bem a maneira do que os judeus ver essa questão. Uma coisa fundamental, uma coisa que faz parte da identidade dos judeus modernos, mas ao mesmo tempo é incrivelmente traumático. Não é algo fácil de viver com essa história, mas ao mesmo tempo é algo muito importante para saber o passado.

JSB: Como você ver as outras vítimas do holocausto, Ciganos, Comunistas, Deficientes Físicos e Testemunhas de Jeová?

  1. Rappaport: Eu vejo como vítimas idênticas que tiveram o mesmo tipo de agressão, como os judeus. Mas, a questão que eu gostaria de falar é que existe um interesse particular para a cultura dos judeus na sociedade ocidental. Existem países que não possuem judeus, mas que existe muito racismo contra os judeus. Essa é a razão pela qual falamos mais sobre os judeus. Não é porque o massacre foi mais intenso, mas porque o judaísmo é uma coisa que interessa mundialmente as pessoas.

JSB: Qual seu sentimento a respeito do holocausto?

  1. Rappaport: É um sentimento de enorme tristeza. Cada vez que penso sempre fico chocado. Tenho dificuldade de imaginar como uma pessoa pode pensar tão desumano. Para falar das minhas emoções [silêncio] só de pensar de falar dessa história agora me sinto triste. Um pouco perdido, sozinho [silêncio prolongado], sem palavras! É como um silêncio que agente sente quando estamos num cemitério, num lugar triste. Não tenho palavras.

JSB: Em sua opinião o que é necessário que a sociedade faça para que atrocidades como o holocausto não se repita?

  1. Rappaport: O que é difícil perceber nessa pergunta é que na época ninguém pensava que seria possível que o holocausto seria possível. Os primeiros testemunhos do que aconteceu, ninguém levou a sério essa história. Como era uma coisa tão absurda de pensar, eles não acreditavam. É por isso que é extremamente delicada essa pergunta. Esse massacre não deveria ter existido! Poderia ter sido evitado se as pessoas vissem os outros iguais socialmente […] deveríamos ter mais consideração pelas outras raças [etnias], como os muçulmanos na Europa atualmente. Poderiam ser melhores tratados, tudo a ver com o racismo, eles não são tratados como deveriam. E os cristãos também que moram nos países arábico que são maltratados devido o racismo. Essa é uma maneira de pensar que apresenta o outro como ser inferior que existiu e existe atualmente.

Por Josieliton Sousa Bernardo (graduando em História, FID).

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